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Bonga Kwenda Biografia

 
Anselmo Ralph
Raiva a.k.a
Nilton G
IRMÃOS VERDADES
CMC
Bob Da Rage Sense
Bonga Kuenda
Kussondulola
Rui Mingas
Banda Maravilha
Duo Ouro Negro
Kimbambas do Ritmo
Filipe Zau
Denéxl
Gutto
Sebem
Os Kiezos
Ângelo Boss
Megga Fofo
Don Kikas
Dr Nando
Dalton Borralho
Guy Destino
Puto Prata
Kalibrados
O2
Diamondog
Pedrito
Caló Pascoal
Yuri da Cunha
Dircy Sil
Neide Van-Dúnem
Dog Murras
Bangão
Os Lambas
Yannick (AfroMan)
Marita Vénus
Paulo Flores
As Gingas do Maculusso
Big Nelo
Patrícia Faria
Matias Damásio
Yola Araújo
     
 

Barceló de Carvalho nasce a 5 de Setembro de 1942, em Kipiri, na província do Bengo, a norte de Luanda, em Angola.Filho de Pedro Moreira de Carvalho, natural de Luanda, e de Ana Raquel, do norte de Angola. Barceló é o terceiro filho de uma família composta por mais nove irmãos. A família tratava-o carinhosamente por Zeca.

A sua infância foi passada em bairros como os Coqueiros, Imgombotas, Bairro Operário, Rangel, e no Marçal. Aí vive-se um ambiente intimista de perservação das músicas e tradições angolanas, marginalizadas pela dominação colonialista presente na época. O folclore dos musseques (bairros pobres) cedo fascinou o pequeno Zeca e por isso começou a frequentar e a participar das turmas dos bairros típicos de Angola, onde iniciou a sua actividade musical. Foi no bairro do Marçal que fundou o grupo "Kissueia". Barceló faz parte de uma geração de jovens lutadores de famílias humildes e resistentes, que resolve criar o seu próprio estilo musical, afirmando a especificidade da cultura angolana, numa época muito conturbada.

Pode-se dizer que o respeito e a admiração pela música, dança, provérbios e vivência tradicional das gentes começa ainda na infância. Barceló não mais abondonará o interesse pela música tradicional e pela cultura suburbana enquanto divulgação dos usos e costumes da linguagem e cultura angolana. Todavia o seu talento musical só se revelará um pouco mais tarde.

Bonga é produto de uma geração aguerrida e marginalizada que resiste à aculturação da sociedade marginal através do respeito pela música tradicional de Angola. A cultura angolana era dominada pela colonização portuguesa de então, daí que tanto a língua como a música tradicional fossem descriminadas e impedidas de se manifestar em plenitude. A música era para Bonga uma forma de lutar sem armas, era uma forma de resistência cultural.

Barceló sempre se sentiu atraído pelo atletismo. Tudo começou ainda muito jovem quando revelou perante os seus amigos do bairro ser o mais rápido nas corridas e nas fugas. Depois começou oficialmente a correr no S. Paulo do Bairro Operário, rotulado pejurativamente como o "club dos pretos". Aí revelou o seu talento e nacionalismo, ingressando no Clube Atlético de Luanda, clube bem conceituado na época.

Em 1966, com 23 anos de idade, depois de ter alcançado os maiores títulos de Angola em 100, 200, e 400m, a sua entrada em Portugal dá-se aquando de um convite do Sport Lisboa e Benfica, que se deveu às suas múltiplas victórias nos campeonatos em Angola. O objetivo deste convite é a prática semi-profissional de atletismo. É entre 1966 e 1972 que Barceló de Carvalho atinge por sete vezes o estatuto de campeão e permanente recordista de ateletismo: onze internacionalizações nos 400 metros, nos 200 e 400 metros na taça da Europa de 1967, nove nos 4 x 400 metros e seis nos 200 metros, além de várias vitórias em torneios, tal como o grande prémio de Viseu em 1968 (400 metros), o Torneio Toddy em 1969 (100 metros), o II Grande Prémio das Festas de Santo António, etc...

A adaptação não é fácil e Barceló encontra alguma compensação emocional na comunidade angolana e africana a residir em Portugal e nas suas recordações e sons da memória. Nando V. Dias, Teta Lando, Rui Mingas,

Eusébio, Velho Custódio, o Santana, o Cabrinha, o Vasconcelos, e tantos outros que são os companheiros desta vivência, cujo resultado é um amor profundamente exercitado pelas suas gentes e raizes bem como uma forte sintonia com a tradição angolana.

Vivem-se tempos de acesso nacionalismo. África pretende alcançar o seu lugar no mundo livre e afirmar a sua consciência e identidade cultural. Barceló é já um nacionalista convicto. Portugal era então regido pela política repressiva e tascista de Salazar e Caetano. Com o início dos movimentos a favor da independência das ex-colónias portuguesas, Bonga usa a sua liberdade de movimentos proporcionada pelo seu estatuto de atleta recordista para passar mensagens entre compatriotas que lutam pela independência em Angola. Por este motivo é obrigado a fugir de Portugal para a Holanda, uma vez que começa a ter problemas com a polícia do Estado-Novo, a Pide. O exílio é a solução.

Em 1972, na Holanda lança o seu primeiro album "Angola 72", onde canta a revolução e o amor á pátria. É por esta altura que Barceló se reveste de uma nova angolanidade e passa a chamar-se Bonga Kuenda. Adopta um nome africano que significa "aquele que vê, aquele que está à frente e em constante movimento".

Bonga está consciente de que a cultura e a música africana ainda não é respeitada enquanto tal no mundo dos europeus, ditos civilizados. É esse o fundamento de uma consciência da necessidade da independência, da libertação, do povo e da pátria. Bonga torna-se assim a voz e o rosto da angolanidade no mundo. Os anos 70 são os tempos da arte-combate, onde estão espelhadas nobres e profundas convicções e aspirações a favor das ex-colónias portuguesas e contra o colonianismo. "Angola 72" está por esta altura proíbido em Portugal e Angola, pela sua ressonância política e consciência crítica.

Bonga actua pela primeira vez nos Estados Unidos em 1973, aquando da celebração da independência da Guiné-Bissau, integrado num espectáculo de homenagem à cultura lusófona. Eis que surge a Dipanda (independência) em Angola e com ela Bonga atinge o estatuto simbólico de embaixador da música angolana. Dá-se o 25 de Abril e Bonga lança "Angola 74". Em África as independências sucedem-se. Bonga está em Paris e por esta altura regista no consulado português em França o seu nome artístico, Bonga Kuenda.

Bonga cria uma genial fusão entre a sua pessoa e a música de Angola, tornando-as indissociáveis e tendo como maior estandarte, o Semba, um ritmo tradicional angolano correspondente ao samba brasileiro, mas percursor deste.

Bonga também se destacou no estilo musical caboverdiano "morna", com a música "Sodade" 18 anos antes de Cesária Évora a tornar famosa.

A sua música consegue ser tanto mordaz e incisiva como terna e nostálgica. Bonga tem sabido manter a coerência e a qualidade musical em mais de 30 anos de carreira e vivendo fora do seu país. Daí que o artista afirme parafraseando Fernando Pessoa: "a minha pátria é a música angolana".

Os anos 80 são tempos de apogeu international, comercial e cultural. Os êxitos sucedem-se: é o primeiro artista africano a actuar a solo, dois dias consecutivos no Coliseu dos Recreios, símbolo da música portuguesa, é o primeiro africano Disco de Ouro e de Platina em Portugal. O seu sucesso estende-se para lá das fronteiras lusófonas e Bonga actua no Apolo em Harlem, no S.O.B. de Nova Iorque; no Olympia de Paris, na Suiça, no Canadá, nas Antilhas e em Macau. O seu sucesso é resultado de um trabalho árduo, intensivo e metódico e de uma imaginação criativa que caracteriza toda a sua carreira.

Em 1988, Bonga regressa a Portugal, dezassete anos depois de ter fugido clandestinamente. Bonga regressa não como recordista do atletismo, mas como recordista de vendas e popularidade, que canta música de intervenção, revolucionaria e carismática. Um dos motivos pelos quais Bonga não regressa definitivamente a Angola é porque a independência pós-colonial desintegrou-se em corrupção, tirania e guerra. Assim sendo, Bonga manteve uma aguda consciência crítica relativamente aos lideres políticos de ambas as partes. A sua música é um esforço constante em legitimar a cultura africana enquanto identidade cultural autónoma e por isso o seu processo criativo, longe de revelar um mero exotismo, afirma uma consciência libertadora, uma teoria profunda que pretende difundir a cultura angolana no mundo.

Bonga tem recebido inúmeros prémios de popularidade e homenagens relativamente à sua obra, onde conta com distinções varias, medalhas e discos de ouro e de platina, entradas nos podiuns de desporto e nos Tops musicais mais representativos, bom como participações ao lado dos mais ilustres músicos e eventos musicais internacionais. Bonga tem manifestado inúmeras vezes a sua solidariedade e altuismo dando concertos de benificência para instituições como a MRAR, a Amnistia International, FAO, ONU, UNICEF e também este concerto que se realizará no C.C.F. a 31 de Janeiro, reverterá a favor da acção missionária dos Capuchinhos em Angola. Para além disso tem participado em CD's como por exemplo "Em Português Vos Amamos" dedicado a limor, "Paz em Angola" ou ainda "Todos Diferentes, Todos Iguais", um marco importante da luta contra o racismo.

Com mais de 300 composições da sua autoria, 33 albuns, 6 video-clips, 7 bandas sonoras de filmes, e albuns com inúmeras reedições em todo mundo, revela um percurso exemplar.

Os seus temas têm sido interpretados por ilustres artistas como no Brasil Martinho da Vila, Alcione e Elsa Soares, em França, Mimi Lorca, no Zaire, Bovic Bondo Gala, no Uruguai, Heltor Numa de Morais, e grande parte dos artistas angolanos da nova vaga, etc...

Bonga, com mais de trinta anos de carreira, é recordista de vendas dos seus 33 albuns, em todo o mundo, convidado para inúmeros espetáculos que contribuem para a imagem positiva do seu país. A consciência crítica, a luta pela paz, o carisma e o talento fazem deste compositor e intérprete, o mais controverso mas também um dos mais queridos filhos de África.

Bonga é incontestavelmente uma referência obrigatória e uma peça nuclear da cultura africana, criando através da sua obra musical o melhor cartão de visita, além fronteiras, da música angolana.

 
 
   
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