Feb 5
Entrevistas
Para quem serão as Casas da Cidade do Kilamba? PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Kamba de Almeida   
Segunda, 08 Agosto 2011 06:14

Para quem serão as Casas da Cidade do Kilamba?

A Cidade do Kilamba está preparada para receber os primeiros moradores. O presidente da cidade, Joaquim Israel, em entrevista ao Jornal de Angola, garantiu que não há problemas com energia, água e saneamento, porque foram construídas infra-estruturas dimensionadas para satisfazer todos os habitantes. O acesso aos serviços é feito mediante o pagamento de taxas. A mensalidade do condomínio ainda está por definir mas "não é um valor simbólico".alt

Na íntegra a entrevista de Joaquim Israel.

Jornal de Angola - Como vai ser administrada a Cidade do Kilamba, que é o maior projecto habitacional de Angola?

Joaquim Israel - No início da construção o Executivo preocupou-se em criar um modelo de gestão adequado. Foi elaborado um Plano de Gestão, Integração e Desenvolvimento Urbano da Cidade do Kilamba. Este estudo foi concluído e dele resultou o Decreto Presidencial número 62/11, de 18 de Abril, que estabelece as bases e o regime de organização administrativa. Este é o nosso instrumento de trabalho.

JA - Quais são os seus instrumentos?

JI - O plano de gestão tem a estrutura orgânica da administração, as suas competências, as repartições que contempla, e principalmente as fontes de receita da administração, para que tenha autonomia e não dependa muito do Orçamento Geral do Estado.

JA - Em que consiste o novo modelo de gestão?

JI - Este novo plano de gestão tem as bases das futuras autarquias. Estão a ser transferidos poderes e competências para as Administrações Municipais. Vamos ter um orçamento próprio, fazer os nossos planos de investimento e de actividades. É uma oportunidade grande de sermos nós a zelar pelos interesses dos moradores e de lhes garantir bem-estar e conforto. A cidade está a servir como experiência piloto de um modelo de gestão, que se pretende replicar, caso tenha sucesso, às outras centralidades que estão a ser construídas no país e posteriormente às administrações municipais.

JA - Quais são as principais fontes de receitas da administração da Cidade do Kilamba?

JI - Queremos focar as receitas nas taxas municipais de infra-estruturas, serviços colectivos e urbanos. São taxas que servem para a manutenção das próprias infra-estruturas. Porque quando falta a manutenção há degradação dos equipamentos e a sua reparação fica mais cara. Os moradores vão pagar pela recolha do lixo, pela limpeza dos arruamentos e outros espaços públicos e ainda pela iluminação pública. Existem também as taxas referentes à ocupação dos espaços públicos, a concessão de licenças comerciais e de publicidade. Há muitas fontes de receitas que temos que explorar.

JA - Quais são as tarefas actuais da administração?

JI - Estamos na fase da organização. Antes de existir a administração da Cidade do Kilamba, funcionava uma comissão instaladora. A nossa tarefa era recolher dados e analisar aspectos importantes que não estavam contemplados no contrato com o empreiteiro. Agora estamos a fazer a selecção do pessoal e a preparar os regulamentos. No acto da aquisição do imóvel, os moradores recebem um regulamento da cidade, onde vão constar regras do condomínio e as taxas, para que depois não fiquem surpreendidos.

JA - Quando é que chegam os primeiros moradores?

JI - Estamos ansiosos que eles cheguem. Porque sem moradores não conseguimos trabalhar. O processo de comercialização deve começar dentro de um ou dois meses. A cidade está preparada para recebê-los.

JA - As estações de tratamento de água potável e de águas residuais estão dimensionadas para o número de habitantes?

JI - As infra-estruturas estão dimensionadas para a população da cidade. A estação de tratamento de água potável está concluída. Estamos agora a concluir a estação de captação, no rio Kwanza, com capacidade para produzir 40 mil metros cúbicos de água por dia, que é uma quantidade superior à necessidade da população. A estação é modular e pode ser ampliada à medida das necessidades.

JA - E a estação das águas residuais?

JI - Quanto ao tratamento das águas residuais, a estação também está dimensionada para a cidade e tem uma capacidade de 35 mil metros cúbicos por dia. Ela também é modular e pode ser ampliada. As áreas de expansão estão acauteladas e não há problema nenhum.

JA - A cidade tem rede de drenagem das águas pluviais?

JI - A drenagem da cidade é das melhores. Temos galerias subterrâneas com secções de nove metros quadrados, em alguns troços, e galerias duplas, cada uma com secções de nove metros quadrados. São autênticos rios subterrâneos. Estão dimensionadas para absorver o caudal de água que se espera nesta primeira fase e também na segunda fase do projecto.

JA - As estações de energia eléctrica suportam o consumo de todos os moradores?

JI - A cidade é alimentada pela estação do Campus Universitário. Dentro da cidade há ainda duas subestações. Mas o Executivo vai construir dentro da cidade uma estação igual à do Campus Universitário nas fases de entrega de imóveis. Não vamos ter problemas de água, energia eléctrica, nem de saneamento. O modelo de pagamento de energia é o pré-pago. O da água é pós-pago. Mas temos válvulas de corte e a Epal, a entidade gestora, sabe como fazer os cortes selectivos a quem não pagar.

JA - Como é feita a recolha e tratamento do lixo?

JI - Vamos experimentar um novo modelo. Queremos fazer a recolha selectiva dos resíduos. Estamos a fazer um estudo e contactos com empresas especializadas. Há pessoas que são contra a recolha selectiva, uma vez que todo o lixo vai depois ser depositado no aterro geral. Mas tomamos conhecimento que já há uma empresa que vai começar a fazer a selecção dos resíduos a partir do aterro dos Mulenvos. Isto vai exigir programas de sensibilização e de educação nas escolas.

JA - Quem faz a manutenção dos espaços verdes e dos prédios?

JI - Cabe à administração da Cidade do Kilamba fazer essa manutenção, mas vamos entregar esses serviços a terceiros. Da mesma forma que há uma empresa para recolher os resíduos sólidos, haverá outras para tratar dos espaços verdes. A manutenção dos prédios também é da responsabilidade da administração, por isso é que vamos cobrar uma taxa de condomínio.

JA - Qual o valor da taxa de condomínio?

JI - Ainda não podemos adiantar um número porque estamos a fazer alguns cálculos. O valor da taxa vai ser aprovado e publicado em decreto pelo Ministério das Finanças. Pretendemos uma taxa realista e não simbólica. Tem que ser uma taxa que consiga cobrir os gastos que vamos ter.

JA - Porque razão a Cidade do Kilamba não tem instituições de ensino superior?

JI - Porque estamos perto do Campus Universitário da Universidade Agostinho Neto. Mas o projecto tem áreas para o investimento privado. Se houver uma instituição de ensino superior que tenha interesse em construir dentro da Cidade do Kilamba é bem-vinda.

JA - Qual é o critério de ocupação dos espaços reservados ao comércio?

JI - Toda a actividade comercial requer um licenciamento. A administração é a entidade competente para o efeito. Os interessados vão comprar ou arrendar o espaço e nós vamos regular a actividade e definir que tipo de negócio deve existir em cada loja. Isto para não termos numa rua cinco farmácias ou cinco salões de cabeleireira. Nestas primeiras entregas de imóveis tem que ser assim para proporcionar diferentes serviços aos moradores. No futuro, o próprio mercado dita como as coisas vão funcionar.

JA - Que serviços administrativos existem na Cidade do Kilamba?

JI - Temos postos de registo eleitoral, de identificação, notário, posto de registo civil e de registo predial. Temos também uma repartição de finanças, agências da Edel e da Epal e agências bancárias. Estamos num processo de negociação com a entidade promotora do projecto, para dar prioridade a alguns bancos.

JA - Existem instalações para as forças de segurança?

JI - Temos instalações para a Polícia Nacional e está em construção uma escola e um comando de divisão, já na perspectiva da Cidade do Kilamba ser a sede do município de Belas. Como a cidade está dotada de infra-estruturas, estamos a fazer contactos para ser instalado um circuito de câmaras de vigilância. Isso não representa grandes custos, porque temos cabos de fibra óptica na cidade.

JA - Está previsto algum posto de bombeiros na cidade?

JI - O projecto da Cidade do Kilamba foi acompanhado por efectivos dos bombeiros e protecção civil desde o início. Todos os edifícios respeitam as normas e exigências do Corpo de Bombeiros. Eles fizeram visitas regulares e mesmo depois da inauguração da cidade estiveram aqui para ver se as últimas recomendações foram cumpridas. Também já está em construção um quartel de bombeiros para a cidade. Teremos mais do que um.

JA - E cemitério e igrejas?

JI - O plano director da reserva da Cidade do Kilamba contempla essas estruturas. Só que o cemitério não está inserido nesta primeira fase de construção da cidade. Faz parte da segunda fase. O plano urbano aprovado também contempla áreas para instituições religiosas. Mas não é obrigação do Executivo construir igrejas. Nós apenas disponibilizamos o espaço.

A cidade em números

Área total da cidade do Kilamba - 5.400 hectares

Área de construção da primeira fase - 900 hectares

Primeira entrega - 115 prédios, 3.180 apartamentos e 19.800 moradores.

Segunda entrega - 218 Prédios, 6.894 apartamentos e 41.364 moradores.

Data prevista da entrega - Dezembro de 2012

Terceira entrega - 377 prédios, 9.928 apartamentos e 59.568 moradores.

Data prevista de entrega - Dezembro de 2012.

Infra-estruturas concluídas até 2012 – Nove escolas primárias, oito escolas secundárias, 24 creches, dois hospitais, dois centros de saúde e 240 lojas.

Espaços de lazer - Um em cada quarteirão, que tem 25 a 28 prédios. Cada quarteirão da cidade tem igualmente um ginásio comunitário e quatro campos desportivos ao ar livre.

Actualizado em Segunda, 08 Agosto 2011 06:16
 
Ex- comandante de Viana revela como Quim Ribeiro mandava executar PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Kamba de Almeida   
Terça, 26 Julho 2011 06:34

Ex- comandante de Viana revela como Quim Ribeiro mandava executar

Luanda - Sem medo, Augusto Viana Mateus, testemunha chave do “caso Quim Ribeiro”fala em entrevista exclusiva, tudo quanto sabe e sobre a sua vida clandestina desde que decidiu contar a verdade.alt

 

*Tandala Francisco e Mariano Brás
Fonte: A Capital

Quim Ribeiro foi sempre um monstro

Como foi que tomou conhecimento dos factos envoltos no agora publicamente chamado “Caso Quim Ribeiro”?


Como Comandante de Divisão tive conhecimento em primeira instância, comuniquei a quem de direito, tramitei o processo o valor para quem de direito.


Quem são esses “quem de direito”?

Quem de direito é a Investigação Criminal e com o conhecimento ao Comandante Provincial. Neste aspecto, quero vos aclarar o seguinte: os milhões de dólares existiram, mas o milhão de kwanzas é falso, é pura mentira. O vosso jornal vem fazendo um trabalho excelente sobre o que se passou.


Passemos, então, aos factos…

O acto ocorreu em Agosto de 2009, eu como Comandante de Divisão tive conhecimento da falsificação, da rectificação do processo em Março de 2010 depois de chamar o meu Chefe de Investigação Criminal e perguntar -lhe sobre como é que andava o processo. Em resposta, ele perguntou-me se o Comandante (eu) não sabia de nada? Eu questionei: mas saber de quê, além de que tinha mandado 1.080.000,00 (Um Milhão e Oitenta Mil Dólares) para a Direcção Provincial de Investigação Criminal (DIPC) e comuniquei este facto ao Comandante Provincial e que tal está confirmado? Ele insistiu: o processo foi rectificado. E, surpreso, indaguei: mas, rectificado porquê? Ele me respondeu que, agora, o processo já não é de um milhão de dólares mas sim de um milhão de kwanzas. Calculei, então, que então que aqueles 75.000,00 (Setenta e Cinco Mil Dólares) que me tinham dado, e que, inicialmente, eram 100 mil dólares, mas que, por força de uma preocupação do comandante provincial, ele subtraiu 25 mil dólares, agora faço fé que este dinheiro é dos dos valores apreendidos no Quilómetro 9, em Viana. Esta é a base do processo.


Trata-se, então, de um processo viciado à partida. Portanto, desde a operação em si às sucessivas declarações dos valores…

Exactamente. A busca foi ilegal. Inicialmente, estavam 3.600.000,00 (Três Milhões e Seiscentos Mil Dólares) apreendidos. E nesta intervenção policial, o Comandante foi enganado da seguinte forma: disseram que não houve intervenção policial, mas apenas de investigadores. Era mentira, porquanto dela participaram agentes da Polícia fardados e viaturas caracterizadas da Polícia, viaturas patrulheiras. No local, subtraem 1.200.000,00 (Um Milhão e Duzentos Mil Dólares) que levam ao Zango e lá trabalham na base deste valor. Depois de terminada uma reunião, fui para o Zango e encontrei o chefe de Investigação e dos Serviços de Sector a trabalharem no caso. Vendo a quantidade, perguntei: mas este dinheiro é mesmo verdadeiro e a quem pertencia? Eles me responderam: esse dinheiro verdadeiro e pertence a um funcionário do Banco Nacional de Angola. Pensei: aqui há gato. E comuniquei imediatamente ao Director de Investigação Criminal, dizendo-lhe que, de facto, havia valores e que dentro de momentos diríamos o montante efectivo porque os homens estavam a trabalhar. Do Zango para o gabinete do Chefe de Investigação Criminal saem 1.200.000,00 (Um Milhão e Duzentos Mil Dólares). Do gabinete do Chefe de Investigação Criminal, de Viana, para o gabinete do Comandante de Divisão de Viana, onde os valores, depois, passaram a noite, chegou 1.080.000,00 (Um Milhão e Oitenta Mil Dólares) e já 120.000,00 (Cento e Vinte Mil Dólares) tinham desaparecido, estranhamente. Nesta altura contactei o Paulo Rodrigues, na altura Adjunto na DPIC e ao Caricoco, que era Chefe das Operações, liguei para eles, procurando saber onde estavam. Disseram que estavam em Viana. Pedi, então, que fossem ao meu gabinete. Eles chegaram e, volvidos alguns minutos, entrou o Palma e o Couceiro com os valores. Selamos a pasta. Já que o director da DPIC dizia que já era tarde e que, por isso, na sua instituição já não tinha funcionários na área das Finanças, então o dinheiro, por estar seguro, passaria o fim de semana no meu gabinete para que fosse remetido na segunda-feira. Assim o fizemos. Assisti o carro partir, depois o António João (director da DPIC) me confirma a recepção dos valores e, depois, comunico ao Comandante Provincial que os valores já estavam na DPIC e que o António já me tinha confirmado a posse. Daí o tempo foi correndo, mas mesmo aí houve duas gafes básicas que não vou aqui dizer, reservo-me ao direito de dizê-las em tribunal. Houve, por exemplo, intervenção do Director de Investigação Criminal quando quem deveria intervir era o Comandante de Divisão. Esses dois elementos básicos, que indiciam a desvio de valores, foram cometidos logo no segundo dia e quem interveio nisso foi o director de Investigação Criminal. Eu ainda chamei o Director e, em termos menos urbanos disse-lhe: quem manda aqui como Comandante de Divisão de Viana é Augusto Viana e não é o António João, o António João manda na DPIC, e eu mando aqui. Mas já que ele interveio, ele avocou o processo então, para mim, estava tudo muito bem, pensando que tinha sido por uma questão de operativa. Mas o tempo foi passando e chegamos a Março e à tal conversa com o meu chefe de Investigação.

 

Como foi que se justificou o “prémio” de 75 mil dólares que recebeu?

Pelos serviços que eu vinha prestando ao município de Viana, pelo meu empenho à frente do Comando de Divisão de Viana. Por isso, o Comandante Provincial orientou a entrega desses valores ao director António João, isso em Outubro, dois meses passados da apreensão.


A princípio eram 100 mil dólares…

Sim, mas por alguma necessidade mandou subtrair 25 mil dólares. Ele me comunica numa segunda-feira, no caso António João, e eu supunha que fossem apenas 100 mil kwanzas e não me mostrei disposto a sair de Viana para o centro da cidade, enfrentar aquele todo trânsito, só para apanhar 100 mil kwanzas. Pensei, entretanto, em apanhar o dinheiro numa quarta-feira, dia em que tinha uma reunião no Comando Provincial. Quando recebi os valores na DPIC, não abri o envelope. Agarrei o envelope e saí. Se a secretária do António João for honesta, ela confirmará. Afinal, neste dia ela viu-me a entrar no gabinete e a sair com o envelope. Era grande. Pu-lo dentro da minha pasta. Nas imediações do Cemitério da Santana, decidi começar a gastar o que julgava serem 100 mil kwanzas. Ao abrir o envelope vi que eram muitos dólares. E disse-o a António João para quem liguei em seguida. Lá ele reafirmou que o kota é que tinha mandado dar pelo meu empenho. Épa, pensei: como estou mesmo lixado, vou resolver alguns problemas da vida.

 

Em nenhum momento desconfiou da proveniência desses valores?

Bem, tendo em conta a pessoa, de nomeação presidencial, tínhamos de ter uma confiança nela. Orienta um director a entregar-me um valor, como estímulo… ainda questionei porquê de tanto dinheiro, mas fui informado de que era um estímulo pelo meu empenho. Como, normalmente, na Polícia há alguns estímulos eu caí naquela. Bom, de facto, o valor fez-me um pouco de espécie… mas, pronto, eu recebi o valor. Recebi e o utilizei na compra de dois terrenos. E, a outra parte, como o comandante já me tinha orientado, usei 10 mil dólares e arrendei uma casa em Viana, supondo que haveria retorno desse dinheiro. Março surgem a Procuradoria e a Inspecção Geral do Ministério face a uma denúncia de um colega, depois pela denúncia da Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC). Fomos até à Procuradoria. Mas nós enganamos. E aqui tenho a coragem de assumir isso publicamente e de, ao povo angolano, pedir desculpas. Eu, diante de uma instituição idónea como Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Inspecção Geral do Ministério do Interior, menti em defesa de um indivíduo que não tem carácter e que mereceu nomeação presidencial. Fi-lo no sentido de acobertar o chefe, que tinha baixado orientações precisas que eram um milhão de kwanzas, que o assunto estava resolvido superiormente e que, por isso, não era da minha competência questioná-lo. Quero também pedir perdão, publicamente, ao Chefe de Estado que mandou instaurar um inquérito à respeito ao qual, inicialmente, menti. Devo dizer mesmo que a morte dos dois colegas no Zango tem a mão do Comissário Joaquim Vieira Ribeiro. Cumpriu a ordem, o António João que, por sua vez, instrumentalizou o seu adjunto, Paulo Rodrigues, e ao Caricoco. Não há dúvidas. Eu tenho muitos argumentos para confirmar e fazer fé das minhas afirmações. Ao povo angolano, digo que tenha paciência. Ao contrário do que dizem os advogados, esse processo tem pés para andar. E não só: tem ainda o condão de sancionar e de reeducar a corporação policial.

 

Quanto tempo levou desde a apreensão dos valores até aos assassinados ocorridos no Zango?

Apreensão dos valores aconteceu em Agosto de 2009. A morte deu-se em Outubro de 2010. Quer dizer que passaram-se 14 meses. Só se chegou chegou a estes 14 meses porque eu, na altura Comandante de Divisão, não cumpri a ordem do então Comandante Provincial. Já em Maio ele me tinha dado ordem expressa para linchar a vida do colega, e eu disse ao Comandante que a essa ordem não cumpriria. Ele, num tom arrogante, insistiu que segunda-feira pretendia ver o serviço feito. Entretanto, fui para o Zango, meti o pessoal a fazer guarnição e orientei no sentido de que todo o movimento estranho que resultasse em incursão à residência do malogrado teria de ser repelido. Tinha consciência de que uma vez eliminado aquele homem eu teria a vida estragada. Eu tenho família para sustentar; os meus filhos sobrevivem porque o pai vive e trabalha para eles, e não está aqui para linchar a vida de colegas. Se o colega que fez uma denúncia o destino para ele não seria a morte, afinal existiam vários mecanismos para sanciona-lo que não era a morte, em caso de se confirmar que a denúncia dele era falsa. A sentença da morte do Joãozinho surge já depois de termos sido chamados pela PGR à qual tínhamos já enganado por duas vezes assim como ao Ministério do Interior – o Ministério do Interior, graças à este novo ministro, teve muita competência teve discernimento suficiente e conseguiu esclarecer o caso; as duas comissões que foram criadas estavam mais em defesa do Comissário e seria mais um caso semelhante ao Frescura, isto é, protecção do Comissário para sancionar os miúdos, e eu já não sou miúdo porque tenho mais de 45 anos de idade e levo 29 anos de serviço os quais pretendo preservar…


De que comissões fala, em concreto?

Estou a falar da primeira comissão, constituída pela Inspecção Geral do Ministério do Interior e pelo Gabinete de Inspecção do Comando Geral que não oferecia confiança. E até posso desvendar aqui um nome: o Comissário Caliva só estava para me linchar, para me estragar a vida, protegendo o Comissário Joaquim Vieira Ribeiro. Já a segunda comissão, eu amigo, eram todas Comissários. Veja que fui notificado para estar no gabinete do vice-ministro do Interior por volta das 08 horas. Eu vivo em Viana, para chegar às 08 horas tenho que sair de casa às 05 horas. No local meteram-me num gabinete com o ar condicionado ligado ao máximo, não me ofereceram sequer uma água. Fui ouvido apenas às 12 horas e o vice-ministro não me recebeu. Aí, meu amigo, não podia falar a verdade. Queria passar a informação correcta e verdadeira num local que me oferecesse garantias de segurança. E na PGR, pela segunda vez, faltei com a verdade por quê? Porque os Procuradores Gerais adjuntos não estavam presentes. Estavam lá antigos funcionários da Polícia, estes também não me ofereciam confiança e, perante eles, faltei com a verdade. E, mais uma vez, penitencio-me ao povo angolano por este facto, pelo trabalho que dei aos competentes procuradores, profissionais da PGR, quer da esfera militar, assim como o departamento de acção penal. Foram competentes, aliás, altamente competentes, imparciais e tomaram uma posição correcta. Que não venham cá crucificar os funcionários das duas áreas da PGR por me estarem a proteger. Ao fazerem isso, eles estão a fazer fé dos factos. E eu tenho argumentos para silenciar os advogados, isto é, quer os advogados do proprietário dos valores, quer o advogado Sérgio Raimundo. O advogado Sérgio Raimundo desaconselhou-me, depois de lhe contar a verdade, desaconselhou-me em não contar a verdade porque, segundo ele, eu devia depender do Quim Ribeiro…

 


O advogado disse-lhe mesmo para não contar a verdade dos factos?

Contei a verdade ao advogado Sérgio Raimundo. E eu estou disposto a falar com este advogado em qualquer área.

 

Mas, não entendemos… Ante a sua história, Sérgio Raimundo pediu-lhe para mentir?

Sim, o advogado Sérgio Raimundo pediu-me para mentir; insistiu que eu continuasse a mentir e que não deveria revelar os factos que ele tomou conhecimento a partir da minha casa depois do natal.

 

Em que circunstância e data contou a verdade ao advogado Sérgio Raimundo?

Bem, quando venho de férias de Cuba, os meus colegas malfeitores…

 

Isso já depois da morte do Joãozinho?

Sim, depois da morte do colega Joãozinho, os meus colegas malfeitores, incluindo o Comandante Provincial que, neste aspecto, quando fizemos a acareação eu disse-lhe que ele tinha as mãos sujas de sangue, que era um assassino, era um gatuno e que não merecia a nomeação presidencial que sobre ele recaiu. Quem o propôs, e eu aqui assumo este facto, para Comandante Provincial de Luanda enganou ao Presidente da República. Digo-vos pois que o consulado de Joaquim Vieira Ribeiro foi o pior que já tivemos no Comando Provincial de Luanda. Por isso, meus amigos, vamos falar apenas dos homicídios e dos dinheiros porque existem outras coisas que não vale a pena falarmos. Não são para aqui chamadas.

 


Em que período, de facto, ocorreu a acareação de que fala?

A acareação ocorreu a 05 de Abril, porque fui eu que a pedi.

 

E por quê a pediu?

Pedi porque da denúncia que fiz, não me sentia bem eles não terem conhecimento, fundamentalmente o comissário Joaquim Ribeiro. E o advogado Sérgio Raimundo desaconselhou-me e me tratou de forma pouco urbana, violando o artigo 73 dos estatutos da Ordem dos Advogados em plena acareação.

 

Concretamente, o que foi que o senhor falou na acareação?

Falei da apreensão dos valores, do estímulo que me mandou dar, da ordem que o Comissário me deu que eu não cumpri, que o enganei dizendo-lhe que o malogrado tinha ido ao Dondo; da segunda ordem, a qual desaconselhei o António João a não cumprir, mas o António João cumpriu e de que forma: instrumentalizando o seu adjunto Paulo Rodrigues e o Caricoco a mobilizarem um efectivo que supostamente era de baixa visibilidade – de baixa visibilidade, na verdade, não tinham nada porque não tinham nível absolutamente nenhum e, neste aspecto, o Comissário Joaquim Ribeiro veio já com intenções maléficas para este órgão, estava constituído por indivíduos altamente competentes. Quando chegou, começou por escorraçar o chefe da brigada de baixa visibilidade e colocou lá indivíduos que só sabiam apertar o gatilho e eu estou em condições de, em tribunal, falar de algumas pessoas que pertenciam a esta brigada de baixa visibilidade que não tinham competência para tal –. Toda a vez que eu fosse ouvido pela PGR, era interpelado pelo Paulo Rodrigues e o Caricoco para saberem o que foi que eu tinha dito acerca do Comandante Quim Ribeiro. Senti que estava a correr riscos dada a permanente pressão.


Ainda se sente assim?

Agora o risco ainda é muito maior. Afinal, muitos pensam que tirei um filho querido da Polícia, que tirei um competente. Hoje alguns Comissários da Polícia (e abro aqui um parênteses, já me vêem mal porque tirei de circulação um individuo que vem fazendo parte das fileiras deles faz tempo, e é amigo deles). Os que estavam na Comissão de Inspecção anterior, que o Ministro mandou instaurar depois da morte do indivíduo, eram comissários e protegiam o seu semelhante. Eu passei trabalho para ter as informações fidedignas, desde o indivíduo que usaram para mostrar a casa, alegando que ele teria visita. Veja que uma hora depois de se indicar a casa, ele foi morto. Isso assim é visita? Foi assassinado com muitas balas. Se Angola for um país, esse processo tem pernas para andar e haverá punições severas. A minha liberdade não está em causa, o que está em causa é a minha integridade física. Sou uma testemunha chave deste processo e desafio o doutor Sérgio Raimundo, em qualquer órgão de comunicação social e a sua equipa e outras que estão nesta área… elas não estão a colaborar para a realização da Justiça. Estão, sim, a dificultar a realização da Justiça.


Os advogados estão a defender, então, uma mentira?

Uma mentira grave e grosseira.


Acredita, então, na existência de algum conluio entre os advogados de Quim Ribeiro e os do funcionário do Banco Nacional de Angola (BNA)?


Não é só acreditar, mas é uma certeza absoluta. A sua afirmação é verdadeira. É completamente verdadeira…

 

De que factos dispõe para sustentar isso?

O António João me confirmou que os advogados do indivíduo do BNA estão de acordo com a falsificação para um milhão de Kwanzas. Este indivíduo do BNA tem propriedades no Zango, tem terrenos no quilómetro 30 e é de onde provirá os honorários dos advogados, tanto é sim que o António João retirou dois elementos do processo, isso mesmo no processo fictício, mandou entregar duas viaturas aos advogados e os advogados contactaram-me mesmo. É uma pena que não posso divulgar aqui, mas em tribunal vou divulgar porque me deixaram até com cartões de visitas. Tenho toda a sustentação. Tenho a lamentar, no entanto, a detenção do agente Jubal, que o senhor Palma usou mal para falsificar a documentação. Lamentou porque sei que o Palma ligou para ele, instruindo para que, quando fosse chamado para a PGR, que revelasse que o dinheiro tinha ficado com o Comandante de Divisão. Preocupado, ele veio ter comigo e contou-me, afinal sabia que era mentira grosseira, porque ele estava por dentro do assunto, acompanhou o processo e inclusive acompanhou a retirada do dinheiro do meu gabinete para a DPIC. De todo o mundo ouvido se aparecer alguém que disser que o Comandante Viana está metido nisso, este fulano é aldrabão. Eu desafio toda a comunidade policial de Viana a apontar o dedo ao Comandante Viana como alguém que ficou com este dinheiro ou esteve no terreno ou que aproveitou-se dos dólares.

 

Como explica o facto de grande parte da acção ter sido orquestrada por elementos maioritariamente afectos ao seu comando? Crê na existência de uma rede infiltrada?


Não é bem assim. Nessa altura, se bem se lembram, em 2009, de Julho a Agosto, Viana foi assolada pelo fenómeno de incêndios de viaturas. Naquela altura, era a nossa maior preocupação e, por isso, estava um grosso de efectivo da DPIC concentrado em Viana, era combatermos estes incêndios. A nossa maior atenção eram os incêndios, e eles enganaram-nos bem. Isto é, o Palma e o Couceiro, enganaram bem a mim, ao Paulo Rodrigues e ao Caricoco que estávamos lá, a frente, no combate aos incêndios. Eles pediram que deixássemos algum efectivo dos Serviços de Sector e da Investigação Criminal para acudir à uma alegada situação caótica no território da Esquadra 48. Na verdade, já tinham a informação de que lá havia um indivíduo que movimentava grandes somas de dinheiro. Arquitectaram bem o plano. Foi numa sexta-feira, estávamos juntos numa quinta-feira, até às 23 horas. No dia seguinte, às 07 horas e 30 minutos, estava a ser comunicado sobre a apreensão de valores. Logo comecei a ver a máfia do Comandante Provincial. Quando lhe comunico que tinha recebido a informação da apreensão de grandes somas em dinheiro, ele não me libera para que me fosse juntar ao pessoal para acompanhar e tomar conta da ocorrência. Não me disse nada, mesmo sabendo que o meu adjunto estava de serviço no Comando Provincial. Em vez de me liberar para que eu acompanhasse a operação, mandou-me mesmo assim para ir o Comando Provincial para participar de uma reunião sem importância, já que o meu adjunto me poderia representar. Comecei logo a ver aí que o dinheiro seria assumido pela DPIC. Eu tinha de sair da jogada porque ele sabia o meu carácter.


Quando e porquê decidiu contar a verdade à PGR e à Procuradoria Militar?

Bem, eu não podia ser refém da minha consciência, afinal tenho um nível académico aceitável. Portanto, não posso viver refém de actos de barbaridade, pelo contrário, estudamos para preservar a vida humana. Até se tivesse que escolher poderia acobertar o comandante no roubo de valores, mas nunca num homicídio face ao qual já tinha refutado e incumprido a ordem inicialmente dada. Só não denunciei antes porque não tinha nada que sustentasse a minha informação, afinal tinha sido uma orientação verbal e ele era Comissário… Entretanto, a quem é que eu poderia denunciar? Meus amigos: existem cores, tribos que se protegem, na altura estava desprotegido, não sou de Luanda e vi, pelo pouco interesse que a antiga chefia do Ministério do Interior vinha dando ao caso, mesmo perante várias denúncias nos jornais privados, em nenhum momento mandaram levantar um inquérito. E quando mandaram, entregaram-no a alguém que não tinha interesse, isto é, à Inspecção Geral. Não tinha qualquer interesse. A pessoa de patente mais alta na Comissão, no caso o senhor Caliva, nunca foi comigo. Por que razão? Não sei. Só ele um dia irá de dizer. Ele tinha claras intenções de me linchar e aí eu não podia abrir o jogo porque, abrindo o jogo ao Caliva, seria a primeira vítima e, portanto, guardei-me inicialmente.

 

As informações que agora constam do processo são decididamente verdadeiras?

Todos os que instruíram este processo são competentes e têm elementos de prova suficientes. O Dr. Sérgio Raimundo de investigação não sabe nada, apesar de ser um grande académico. Foi meu professor na Universidade, mas de Investigação Criminal não sabe nada porque até pediu-me para não falar a verdade. Ele, ainda, desconhece de dois aspectos básico que surgiram logo no segundo dia da operação de recuperação dos valores. Sei que ele teve apenas uma passagem efémera pela Polícia. Estou disposto a discutir com o advogado Sérgio Raimundo, nos órgãos de comunicação social por onde ele passou e foi falando. Por outro lado, deixo aqui um recado: o Comando Provincial de Luanda que não me convoque, porque não vou aparecer. Só vou aparecer com a chamada do Ministro do Interior, Procurador Geral da República, ou dos seus vices e da esfera militar. Nos comandos Geral e Provincial não vou aparecer por uma razão muito simples: no sábado passado simularam uma visita à minha casa. Agora, vêm dizer que no terreno onde vivo é propriedade da Polícia. Eu tenho documentos e vou mostrar que é real e gostaria que também colocassem no vosso jornal. Abriram um inquérito contra mim, dizendo que me apropriei do terreno da Polícia. É mais uma razão para eu dizer, sem receio, que o problema é gravíssimo na medida em que perderam-se vidas de pessoas, mas não me tira o sono porque tenho solução para este problema. Agora, a minha vida corre riscos a partir do Comando Provincial porque pessoas que eu ontem respeitava como meus chefes, meus superiores e sempre andaram lá e hoje mandam abrir um inquérito sobre uma suposta ilegalidade do meu terreno.

 

Está a insinuar que, apesar da realidade dos factos, ainda há no seio da Polícia uma solidariedade para com Quim Ribeiro?

Ele é Comissário e, por isso, existe essa onda de solidariedade. Mas, repito e assumo: enganaram o Chefe de Estado ao pedirem para nomeá-lo.


Vê esta história do terreno como o primeiro sinal de alguma perseguição interna?

É o primeiro sinal forte de ameaça. Se o Comando Provincial quer ver os documentos, eu vou dar cópias e estampem, por favor, no vosso jornal e eles verão. Eu tenho três parcelas de terreno, devidamente legalizadas.

 

Como aparece de arguido para testemunha chave do processo? Em que circunstância decidiu abdicar dos serviços de Sérgio Raimundo como advogado?

Saio de arguido para testemunha chave por uma questão muito simples: não estou mancomunado com mentiras. Independentemente do advogado Sérgio Raimundo romper o vínculo que, inicialmente, tinha comigo ele não podia defender ao mesmo tempo a “Deus e ao Diabo”. Já antes da acareação ele me ia destratando há muito tempo. Por exemplo, disse que a Procuradoria vem cometendo erros graves na instrução deste processo, mas ele esqueceu-se que ele, na minha condição de Comandante de Divisão de Viana, me contactou para ajudá-los em situações graves, mesmo sabendo que não era da competência de um Comandante de Divisão soltar alguém. Há a história de uma sua cunhada que tinha furtado o cartão multicaixa de um namorado e vinha sistematicamente tirando valores até atingir cerca de 15 mil dólares. Ele fez o pedido, eu e a investigação, sem violar a Lei soltamos a sua cunhada, mas ele teve que repor os valores surripiados ao cidadão; ele também não se esqueça que, enquanto estudante, eu era segundo Comandante de Cacuaco e ele tinha viaturas em serviço de táxi de forma ilegal. Não quero aqui mentir, ou vos enganar: eu lhe protegi. Portanto, o Sérgio Raimundo deve-me respeitar como homem e não esquecer que ao longo da vida já lhe fiz alguns favores, ele tem que me respeitar como profissional de Polícia. Ao longo desse tempo, ele me tem marginalizado. Desafio-lhe, na presença do Bastonário da Ordem dos Advogados, a dizer algumas coisas que ele disse sobre alguns governantes.
 

A ordem de assassinato do Joãozinho parece-nos ter decorrido de uma atitude desespero…

Desespero porque o Comandante Joaquim Ribeiro estava obcecado. Não sei quem lhe tinha dado a informação que ele seria o Comandante Geral da Polícia Nacional. Em certo dia, disse-me taxativamente na presença do António João: “não é bom que eu volte novamente à Procuradoria nos meses de Outubro e Novembro porque estou proposto para Comandante Geral da Polícia, e estraga-me logo a situação porque é neste período que o Presidente começa a realizar as nomeações”. Sinceramente, ele a chegar a Comandante Geral seria um caos total.
 


E como as coisas chegaram a este nível de descontrolo, tendo sido os processos viciados logo à partida e com pessoas que tinham o poder para fazê-lo?

Meu amigo, se o líder que deve representar a verdade, a fé pública numa instituição estiver mancomunado comprometido e com o olho virado para o dinheiro, orientou viciar o processo… não tinha como. O António João cumpriu ordens e foi um mau profissional. O António João, antigo Director Provincial de Investigação Criminal, foi um mau profissional, eu assumo tudo isso e vou assumir as consequências. Estou aqui para lhe dizer o seguinte: o Comando Provincial, nem a comandante provincial ou os seus comandantes adjuntos, que não tentem me chamar porque eu não vou aparecer, nem ao inquérito que se propalou abrirem contra mim. Ao menos que o inquérito provir do Ministério do Interior, da Procuradoria Geral da República, aí sim vou aparecer e farei chegar as minhas provas porque tudo isso que estão a fazer é uma acto autêntico de cobardia.


Perdeu a confiança na Polícia?

Francamente. Existem situações que não vou revelar aqui, mas o farei em tribunal. Existem despachos que devem ser cumpridos por entidades do Comando Geral, e do Comando Provincial, mas não estão a ser cumpridos. Por exemplo, onde eu vivo, não tenho segurança, mas tem um destacamento policial a escassos metros. Porquê? Não faço parte dos indivíduos que devem ser protegidos na óptica deles, mas eu devo ser protegido até antes do julgamento porque depois do julgamento deixem-me à minha sorte que Deus me protegerá. Antes do julgamento devem me proteger porque tenho que falar a verdade, o povo angolano merece saber a verdade deste caso. Eu peço a protecção policial neste caso e aqui tenho de agradecer muito especialmente ao Dr. Sebastião Martins, Ministro do Interior, ao Dr. João Maria, Procurador Geral da República. Hoje estou com vida, sem manchas, sem qualquer lesão porque essas pessoas fazem parte do aparelho do Estado.

 

É um dado certo que Joãozinho foi assassinado enquanto o Comandante Viana se encontrava fora do país?

Estava fora, em Cuba exactamente.

 

 
Eddy Tussa será o novo apresentador do canal 2 da TPA PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Sábado, 02 Julho 2011 07:03

Eddy Tussa não deixa de surpreender. Depois de ter abandonado o hip hop para cantar Semba, o cantor investe agora na carreira de apresentador. Eddy Tussa será o apresentador de um novo programa de comédia intitulado "Apanhados" no canal 2 da Tpa. O programa será emitido brevemente na grelha daquela estação emissora.

 

Eddy Tussa iniciou a sua carreira musical muito cedo. Aos 13 anos de idade começou a mergulhar no mundo da música. Mas foi aos 17 anos de idade que tudo começou a ficar mais sério, quando cantou na banda de Hip Hop “Warrant B" da qual ele considera ter sido uma experiência fantástica.


 

Fonte: Platina Line

 
Entrevista com o músico Barceló de Carvalho «Bonga» PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Terça, 28 Junho 2011 09:37

Entrevista com o músico Barceló de Carvalho «Bonga»

Sabemos que tem um novo disco na forja, mas o que é que representou para si o anterior, Bairro, que foi uma homenagem ao Marçal onde viveu?

 

Aquilo foi um chamamento a quem já lá viveu, mas não tem a ver especificamente com o bairro Marçal. Tem a ver com todos os bairros onde que nós frequentamos, crescemos e fomos educados. Cimentamos algo que tem a ver com este país, com as tradições e todos os velhos, sobretudo que nos transmitiram coisas maravilhosas.

 

Porque quando a gente já vai para as faculdades, universidades e escolas técnicas, sobretudo quando tomamos conhecimento da cultura dos outros, regra geral brancos, europeus e americanos, esquecemos aqueles lugares onde como garotos respeitamos aos nossos pais e avós e aprendemos a comer o funge, kitaba, ngonguenha e farinha com açúcar. Fica complicado quando a gente apaga da memória a vivência do antigamente, que fez de nós africanos específicos daquele lugar. E o bairro teve a ver com isso, foi tremendamente bom que até hoje ainda estou a digerir este bairro música do recordar destas tradições. O bairro para mim teve uma importância capital e continua a ter até hoje. Cada música tem o seu peso específico, porque mesmo estando fora há mais de 40 e tal anos, o importante é retratar coisas daqui que tenham cabimento.

 

E o bairro para mim foi esta síntese dos primos, amigos, com a porta sempre aberta e entra qualquer um em casa, tem logo um prato na mesa, uma cordialidade que o europeu não tem mais. Para mim foi fundamental e recordar isso para educar novamente as crianças do hoje, que estão aí numa de seguir as tecnologias que não facilitam o repor entre homens e mulheres específicos deste lugar do continente.

 


Quando vem a Luanda visita o Marçal?

 

O Marçal está degradado como todos os outros bairros típicos daquele tempo.

 


Já lá esteve?

 

Quer dizer, eu vou de carro, porque dizem que não é muito aconselhável descer do carro sozinho e enfrentar as multidões. Primeiro, também não vamos ser ridículos, sou conhecido, as pessoas vêem e não sei o que isso vai trazer em matéria de complicações.

 

Mas é certo que vejo o bairro a distância, como as coisas estão degradadas, mas sinto que há algo a fazer. Até dizem que há associações, não é verdade, não sei o que estão a fazer. Como não estou aqui e nem vivo aqui, não acompanho assim de perto e os que cá estão também não me dão assim uma panorâmica da aproximação em si das pessoas e da valorização destes mesmos sítios. Acho que há ideias que não são postas em prática, como os clubes do antigamente, como os Maxinde, Marítimo da Ilha, Mãe Preta. E hoje o que é que há? Eu quero saber.

 


O que é que há para si?

 

O que há é um ou outro que tenta fazer qualquer coisa, mas já não é bem naquela vivência do antigamente, com muito mais peso e representatividade. Se calhar porque tínhamos como dirigente um colono que não era muito sensível as nossas coisas, mas hoje é preciso que os nossos dirigentes tenham mais consciência disso e dêem muito mais força a esses lugares, tradição e principalmente os seus representantes. Estou a falar do carnaval, foclores, kituxes e sembas muximas, etc.., destes nomes sonantes que conservamos e não tenhamos complexos.

 

Agora há muita coisa a fazer, evidentemente, mas vamos estar sensibilizados nas coisas que são nossas, não nas coisas dos outros. Parece-me que às vezes perde-se um bocado de tempo nas coisas do Brasil, R&B americano, da Europa, não é verdade, dá-se muito mais ênfase nisso, o que não é muito bom para a conservação das nossas tradições.

 


Viveu em bairros como Marçal, Bairro Operário e Coqueiros. Como é que vê Luanda hoje?

 

Quer dizer, tomando em conta o tempo conturbado que tivemos aqui, isso fez com que nos afastássemos de outras realidades que seria bom conservar. Esses bairros, de facto, contribuíram para a nossa formação, de homens e mulheres que se impuseram aí, mesmo do ponto de vista das lutas e das reivindicações, esses musseques foram o ponto de partida para muitas coisas maravilhosas.

 


O que é que os seus amigos de infância, que vivem no país, lhe dizem sobre Angola dos tempos de paz?

 

Cada um tem o seu ponto de vista. Alguns a titubear diante da democracia, das liberdades, mas quero sublinhar aqui a emancipação porque no tempo da outra senhora tivemos que nos emancipar com 14 anos. Eu com 14 anos já era um indivíduo feito, como todos os indivíduos da minha geração. Tínhamos de fazer coisas extraordinárias, os recados que levávamos dos velhos, as lides caseiras, éramos transformados em troncos das famílias quando os velhos não estavam. Cada um tinha uma actividade a fazer e depois com aquela vivência, mesmo com a determinada carência dos bens de consumo alimentar, o que é certo é que houve resistência e isso permitiu que se distinguissem negros muito capacitados das nossas gerações e daquelas que já foram, com coisas muito acertadas. Os tratos que nos tínhamos, quer dizer a importância do velho como o tronco da família, a respeitabilidade, os exemplos que eles dava, isso fica na minha cabeça como memória de coisa viva que não deixa nada a desejar em relação a outros povos que resistiram tremendamente.

 

Isso aqui foi uma história tremenda e foi muito bom ter sido assim.

 


Já que fala em resistência, tem-se dito que Bonga é uma pessoa que resistiu à aculturação, mesmo vivendo fora. Porquê?

 

É importante ser assim, como dizia atrás se não tivermos identidade estamos feitos. Muito embora a gente tenha passado pelas escolas técnicas, o que é certo é que conservando as coisas daqui temos uma maneira de ser nossa, que é preciso de conservar, ainda que isso venha a carga cheia do calão, gíria e para não falar das línguas nacionais. É algo que nos define e é aí que somos verdadeiros, não vale a pena a gente estar a filosofar alguns programas que a gente vê com o linguajar tuga, especificamente, com aquela entonação. Acho que isso vai passar porque a grande maioria tem uma expressão a ver com uma vivência mais em conformidade. Já foi assim e continua a ser assim. Há indivíduos que conheço de um determinado local que deste país que é Angola que não consegue dizer ‘plural’. Vi indivíduos na prova oral da 4ª classe da instrução primária a dizerem ‘prural’ e serem reprovados no tempo da colonização.

 

Eu sentiria muito mal e chocado ao ver um angolano daqui a ser reprovado numa prova oral da 4ª classe com os nacionais a dirigirem o país. Está a ver as diferenças?


 

É por isso que temos de saber falar com as avós em casa, vizinhos e os indivíduos do interior do país, ligando as pessoas umas às outras por sermos todos nacionais e patriotas, porque no outro tempo até se gozava quando se dizia que se falava o ‘pretuguês’. Isso é um chamamento muito importante para consciência de todos nós. Havia uns indivíduos que tinham um cerimonial com aquelas faquinhas na cara, que é um ritual que existe aqui na terra há muto tempo, nem o colono estava cá ainda, e falava-se mal deste povo, porque falavam mal o português, tinham o ritual e comportamentos não sei quanto. Isso tudo é atraso porque o homem assimilado ao imitar o branco tinham um comportamento de atrasado porque desconhecia a cultura do seu povo. É uma coisa muito triste que fomos constatando ao longo do tempo e hoje é preciso dizer que a nossa juventude e a nossa população que o que se vê na televisão nem sempre serve para consumo.

 

Podemos nos servir das coisas técnicas para melhor apetrecharmos o que é nosso, mas reconhecermos que cada ser humano tem o seu valor e este seu valor é que tem a ver com a personalidade desta força enorme que se chama Angola, em que pertencemos todos. E esta coisa do preconceito de se discriminar alguém que não sabe comer com a faca e o garfo faz parte do passado, mas esqueceram-se que o mais atrasado era aquele que criticava e não aquele que comia com a mão, que é a sua forma normal. Se é um chinês ou um japonês até torna-se exótico e gostam dele, temos esta coisa do complexo que nos foi incutido pela colonização, mantiveram isso por muito tempo. Ainda há quem goze com isso, que se fale disso, a mim chegaram a dizer ‘kota Bonga, então você já com essa tua postura intelectual, fala várias línguas e escreve, viaja pelo mundo, ainda canta calão e gíria?’. São estas pessoas que são atrasadas com esse tipo de observações. È preciso dizer a elas que quando, de facto, forem contactar outras pessoas para estarem a vontade, para representarmos este povo em toda a sua plenitude.

 


Tem sido fácil manter esta postura lá fora, porque disse um dia que os europeus dificilmente reconhecem os músicos africanos quando se apresentam com a identidade puramente africana?

 

E, sobretudo, temos os nossos ‘intelectuais’ que complicam as andanças, porque eles imitam os europeus e acham que todos os africanos têm que se submeter. Isto é que é triste porque são os próprios africanos que ficam a discriminar os seus compatriotas e complica porque ainda estamos perante o racismo e os preconceitos.

 

Tive que me bater para me impor como músico de uma música que era discriminada, era chamada a música do preto e do gentio. E é esta música que impus lá fora. O instrumento mais importante para mim é a dikanza, que alguns ainda chamam reco-reco como o português, por causa do barulho que fazia. Temos nomes próprios das coisas e dos instrumentos. O kitande, há indivíduos que chamam feijão pisado com aquela entonação de Portugal.

 

Isso é triste, quando temos uma camada social que prima pela imitação quer dizer que nos vão pôr novamente a mercê das tais colonizações ou neocolonizações, como quisermos.

 

Não se dão conta do ridículo, é que temos uma maioria de pessoas que se exprime de outra forma, ou melhor, da forma que acham melhor. Mas quando é o brasileiro que fala, aí está-se bem porque foi o brasileiro.

 

Não diz fato completo, diz terno e a gente já imita. Como os brasileiros são brancos, então tá-se bem e imita-se facilmente. Deixa-me dizer-lhe que tive muitos problemas para impor a música que hoje ganha ouros e platina nas europas, mas foi preciso um trabalho tremendo. Mas a nossa gente e os nossos músicos continuam a fazer concepções, quererem fazer uma certa mistura de salsa latina com música brasileira, porque hoje há a mundialização e temos que misturar com os outros. Acho que nesta mundialização devemos primeiro definir as coisas, dando as nossas coisas específicas, porque temos ritmos específicos porque a gente resistiu. Por esta razão hoje existe o semba, kilapanga, kabetula e kazukuta, porque os outros antes de nós impuseram tudo isso e temos que respeitar.

 


Como é que caracteriza hoje a música angolana?

 

A música angolana está cheia de iniciativas, criatividade, principalmente desta juventude, que não pode esquecer que nós já tivemos aqui o R&B, rock n´roll, até há quem cantou tango, valsa e merengue. Mas isso é uma grande abertura que temos na tal porta da mundialização. Esta música angolana está boa de saúde, primeiro porque conserva determinados ritmos que são originais e depois vai fazendo outras coisas para se provar ao mundo que também não estamos fechados num gueto.

 

Podemos abrir o espaço e termos outras coisas. Imaginemos estas crianças que agora fazem aquilo que se diz o kuduro. O kuduro é uma brincadeira e esta brincadeira faz com que os miúdos aguerridos estejam aí com uma força extensiante, que nos caracteriza porque a gente está cheia de criatividade em cima. E o semba está aí muito bem de saúde e muito bem representado por esta juventude. Mesmo quando fazem o kuduro, há sempre um sembazinho aí como identidade própria.

 


O kuduro é um estilo de música?

 

O kuduro está-se a fazer um estilo de música dos repentistas. Está um fenómeno muito sério porque eles estão a tentar manifestar as coisas do dia-adia, a transportá-la para esta música, que é uma expressão viva da miudagem. Foi assim que aliás que começaram outros ritmos e não é nada muito negativo como outros dizem, porque é muito pornográfico.

 

Há tanta coisa que acontece no mundo que a gente não começa logo por ser pejorativo.

 

Tudo começa por ser uma animação, uma expressão viva onde se integra uma série de coisas, não é verdade, que tem a ver com as manifestações normais que esta miudagem tem. Isto depois entra na tal disputa entre os bairros que já começou a ver. Agora que isto está aí a ter uma força tremenda, sim senhor. Eu já fui solicitado a dar uma força nos putos, o próprio Dog Murras já me telefonou e já tive a fazer uma coisa com ele que veio nos vídeos clipes dos miúdos e a gente está para dar força. Põem um instrumento ou outros, mas depois a gente fica sem saber se é semba ou zouk, como eles dizem, ou se é kizomba. Mas o certo é que é uma fusão de coisas que certamente vai surgir algo benéfico e muito importante.

 


Há quem pense que há também resistência de se reconhecer o estilo em Angola, enquanto outros lá fora vão aproveitando. Quer comentar?

 

Há sempre um aproveitamento, até naquilo que a gente estiver a fazer.

 

Se quiserem aproveitar, aproveitem e transmitam como quiserem, mas o certo é que o angolano não pode ficar eternamente reticente porque há coisas daqui. É uma coisa daqui, nasceu aqui, tem força e expressão própria, servindo-se da imaginação criativa destes putos que são terríveis, dançam e têm uns passos incríveis e específicos. O kuduro é já uma inovação e temos que tirar o chapéu e reconhecer. Sou um dos kotas que dá força para que estas coisas apareçam, sem desprimor para as outras que têm definição para o país, já estão aí há muitíssimo mais tempo, como o semba e kilapanga.

 


Com mais de 30 discos no mercado e trezentas canções, onde é que busca ainda tanta inspiração desde que lançou Angola 72?

 

Isso tudo é a motivação, porque estou motivado. Mas também tive uma escola tremenda. Sou um privilegiado porque tive a tal escola da resistência, dos velhos que faziam isso por obrigação. Era obrigação da gente transmitir coisas importantes e os velhos transmitiram para nós porque era a vivência que eles tinham.

 

Por outro lado, era contra as forças coloniais que impediam que a gente se manifestasse culturalmente. Lembrome do carnaval, quando eles diziam que era dos pretos, dos pés descalços, eles não se preocupavam muito. Mas quando se fez a fusão, por iniciativa do Fontes Pereira, dos estudantes, funcionários públicos e outra gente, para um carnaval mais livre e compacto a polícia entrou em cena com cacetadas, houve mortos e feridos. Naquela altura era bom e sou desta geração que acumulou uma data de coisa que depois serviram e têm estado a servir para as minhas composições artísticas. Agora lembrar-me de tudo isso é a minha vivência a mais importante.

 

A gente que deve estar a pensar mais o gajo como tão depressa pode estar em Londres, Berlim ou Paris, mas tenham paciênciaj, porque não é demagogia, o que os musseques nos transmitiram naquelas alturas dos primeiros 23 anos de vida foram muito mais importante em matéria de enriquecimento do que os anos depois, porque agora é só desfrutar.

 

Tão depressa estou num carro luxuoso como estou num avião a fazer uma ida para representar o meu país, tenho consciência disso. Há melhoramento materiais, mas tenho que recordar das coisas do antigamente para produzir as músicas da actualidade porque não canto as rosas, a lua, o sol, o mar e as gajas, no sentido de mulher, bunda, sexual e quê, quê…Não canto nada disso. Canto principalmente o sentimento de um povo que tem força para lutar contra o racismo que ainda, porque discrimina e nós continuamos a nos impor como estamos a fazer actualmente.

 


Algumas mensagens das suas músicas foram polémicas e, se calhar, mal interpretadas, como por exemplo “Maria Kasputo”, “Zé Kitumba”, “Kaprikito”, “Uma era” e outras. O que é que procura transmitir concretamente?

 

O que me faz rir é a interpretação do povão. Nem sempre faço as tais músicas para ter os chavões que o povo depois apelida. E isso é muito bom e se calhar até é uma das minhas especialidades, nas entrelinhas dizer algumas coisas. Mas o povo tem as suas interpretações e isso é que me faz rir. Mas rir de contente e não de angustiado ou fazer a interrogação.

 

Estou satisfeito de saber que as pessoas que vivem no terreno as causas que não estou a viver, que posso estar a transmitir através de um tema, e este povo afinal dá outras interpretações ou muito mais do que aquelas que imaginei ao fazer a música.

 


As interpretações do povo são erradas?

 

Não, são interpretações dentro da sua imaginação e de acordo com vivência que estão a ter. Por exemplo, a Maria Kasputo não é a Maria Eugénia. É aquela angolana que hoje já não bate o funje e vai chamar a tia, que não consegue fazer o funje em casa porque não sabe. Mas daí eles, porque tiveram razões ou não, interpretaram que foi aquela senhora.

 

Então é ela, porque é tuga. Isso me faz rir e ao mesmo tempo reflectir como muitas outras músicas, são cerca de 400 músicas inscritas na Sociedade de Autores e Compositores. Às vezes me perguntam tanta música, tanta coisa? Se calhar continuo fértil em matéria de realizações a ver com o país.

 


Como é que será o novo disco?

 

Vai continuar com a mesma tonalidade? Tem sempre recados. Aliás isso já se tornou rotina, não é novidade para ninguém.

 


São recados para quem?

 

Para toda a gente. Por exemplo, há um recado para os kotas. O disco vaise chamar ‘Hora Kota’, porque não sou dos kotas frustrados. Sou dos que continua a dar coisas no seguimento de uma certa ética e de maneira de ser com exemplos. Então ‘Hora Kota’ é aquela hora do reconhecimento dos valores, tradições, personalidades, aconchego familiar, exemplo, da mão amiga. Daquelas coisas que a gente viveu no outro tempo. Por isso considero-me um privilegiado por ter recebido esta educação e a força anímica, magnética dos kotas do antigamente. Depois tenho outra música que fala desta juventude de hoje que parece que para terem virilidade têm que beber 50 garrafas de cerveja. O álcool não dá virilidade a ninguém, nem dá pulungunza como se diz. É tudo uma ilusão, por isso há os acidentes que se vêem nas estradas. É preciso um chamamento a esta juventude para que tenha calma.

 

Eu como já vivi mais anos do que eles, se reforço a ideia de que o álcool não é nada daquilo que eles pensam, então é uma opinião e um contributo. Tenho uma música também que fiz para o Fontes Pereira, que para mim é um dos grandes maestros, compositores e realizador da coisa nossa. É o homem que criou a escola do semba, o grupo Ngongo e o teatral. É o homem que esteve na origem do tal carnaval que a Polícia colonial reprimiu, porque era complicado ter um povo reencontrado e a manifestar. Portanto, canto para ele e não sei como é que ele vai receber isso. É por causa do coração, é preciso tomar cuidado. Depois são todas essas coisas que a gente põe na música, porque se me perguntarem o que penso sobre os letristas de hoje é muito vago. Não têm conteúdo, porque sistematicamente estão a falar do assunto do cubico, da mulher que se zangou com o marido que tem Luanda 1, 2 e 3, é sempre aquele assunto porque não trouxe dinheiro em casa.

 

Isto está gasto. Mas o brasileiro é um dos povos que mais fala do amor, tudo é amor, mas depois a gente que depois há declínio. Onde é que se vai com este amor todo, quando afinal nem há. Há determinados indivíduos que falam de amor, mas afinal são os primeiros a espancar a mulher. É motivo para a gente perguntar, afinal o que se passa? Mas isso tem a ver com o conteúdo político. Há um outro tempo que houve as baladas revolucionárias no sentido único, ninguém tocava no Governo, ninguém criticava. Era só falar no sentido da revolução, o 1º de Maio, o meu partido. Isso depois passou e empobreceu-se um bocadinho a tónica musical pelas palavras, que era todo chavões e palavras de ordem.

 

De repente, estou à procura do artista ou músico mais emancipado, que pode falar de tudo sem preconceitos e medos. Não há coisa melhor do que sermos livres efectivamente. Cantar uma crítica dentro de uma música é muito bem-vinda, continuo a fazer isso. Aliás, há uns miúdos aqui muito ousados que falam um bocadinho de tudo. Não vou aqui citar nomes de nenhum deles ou de nenhuma delas, mas o que é certo é que já há miúdos a fazer umas músicazinhas onde a gente já escuta que há uma história tão bonita. Tipo essa história do cambúa, que é essa nossa dança que ponho umas certas interrogações, porque é mais uma dança de excitação sexual.

 

A mulher está a dançar parece está a fazer o afro-gim num ginásio. Se a gente não toma cuidado ainda leva um soco, porque está a dançar tipo que está a lutar. Sou do tempo em que há aquela subtileza da mulher, o tal semba dançado, mas não a forma do Zaíre. Não podemos estar aqui a dançar tipo ‘Congo, Congo Na ngai’. Já tivemos coreógrafos do nosso semba e do carnaval, só que não estão assim muito visíveis porque se perdeu um bocadinho e ficasse naquelas danças de imitação, daquelas danças estridentes onde a mulher parece que está no boxe. Vai ser preciso combater isso um bocadinho, mas isso é pertinência jovem. O que é certo é que há sempre uma coisa para se dizer dentro de uma música.

 


Apesar deste ponto de vista, sabemos que tem sido procurado por muitos jovens para duetos. Como é que vê isso?

 

Isso é para mais-valia e até para um certo oportunismo da parte deles, procurarem um cabeça de cartaz, que é um exemplo, para dar força no trabalho deles. Eu é que tenho de os educar um bocadinho. Chamar-lhes atenção e corrigo a música deles. Há um que chegou outro dia, peguei nas palavras dele que tinha no papel e pus no lixo. Disse-lhe que fizesse outra coisa para ver se pudesse contribuir e mesmo o próprio ritmo que eles querem. Continuo a fazer isso e acho que é importante. Todos aqueles que me contactaram sabem que corrigi, informei e que tenho sempre uma palavra para dizer.

 

Gostaria que houvesse mais kotas a dar este exemplo e a transmitir uma outra forma de ver as coisas, com um conhecimento mais plausível e em conformidade com as tradições. Por isso é que se conserva, de outra forma estaria a dizer-lhes para cantarem outras coisas, da bebedeira, da chulice, mas isso não faz parte da minha linha.

 


Qual é a matriz da música angolana?

 

A matriz se tomarmos em conta que esta música, tónica e rítmica cultural saiu daqui e alimentou outros povos a nível do mundo, nomeadamente Cuba, Salvador da Baía, Estados Unidos da América, República Dominicana, Santo Domingos e outros, então nós somos a originalidade. Então temos que primar pela originalidade e tem muito que se lhe diga. Derivado desta assimilação e da presença nociva colonial, que nos tentou separar um bocadinho da nossa raiz e história, ficou complicado, estávamos a perder um bocadinho desta matriz. Agora temos toda a possibilidade de nos reencontrarmos porque está tudo aí, os músicos, os livros que foram publicados e alguns velhos. Por conseguinte, é muito bom a gente voltar um bocadinho para nos informarmos convenientemente para nos reencontrarmos imbuídos de saberes que nos definem.

 

E essa matriz é exactamente a tónica de cada um dentro do seu específico sem sair de África. Sabemos que a Europa está metida aqui dentro, quer queiramos ou não, para nos induzir a fazer outras coisas que têm mais a ver com a Europa do que propriamente com África. A simples forma de comer, andar, dançar, admitimos coisas que não são muito nossas, mas já se enquadram porque é a mundialização.

 

Mas eu digo espera aí, nós que estamos lá fora e que ainda não cedemos, porque senão vamos começar a cantar em francês.

 


Como é que viu uma das suas músicas a ser cantada pelos belgas do Vaya Com Dios?

 

Somos nós que temos força e estamos a impor coisas. Muito recentemente no Olímpia de Paris, que é a sala do music hall internacional, estive com um cantor que é o terceiro mais bem pago depois de Johnny Hallyday, que é o Bernard Lavillier. O Bonga foi o seu convidado de honra. Ele cantou as músicas do Bonga. É o Martinho da Vila, Alcione, Manu Dibango que cantam a música do Bonga e outros mais.

 

Isto é muito bom, sinto finalmente que o meu trabalho está muitíssimo bom e que as pessoas estrangeiras, inclusive, ficam impressionadas e vêm cantar a música do Bonga que é de Angola, isso dá-me imensa satisfação. Mas não acredito que os angolanos estejam conscientes do valor que isso aí tem.

 

Nós não centralizamos ou não convém, por enquanto, falar-se desta carta de visita. Podemos falar dos outros países, do Bob Dylan, Roberto Carlos, que já vieram aqui ganhar fortunas.

 

O Julio Iglesias, mas não se acentua muito a valorização e o respeito. Não falo só do Bonga, mas sim de outros elementos neste país que nem sempre são ajudados como devia. Estou a falar da ajuda e dos patrocínios que às vezes se dá sobretudo em relação ao local de actuação ou do espectáculo. Onde é que a gente vai ver o Carlos Burity? Não tem espectáculo marcado. Onde é que vamos ver o Elias Dia Kimuezo? Também não tem. Onde é que eles estão a cantar em Angola? Também só se canta nos dias de feriados, no 1º de Maio ou na data do partido. Existem discotecas, clubes nocturnos, salas de espectáculo que é necessário produzir a música de Angola com os artistas que fazem parte da praça para o artista poder viver do seu trabalho. Eu vivo do meu trabalho.

 


Sente-se marginalizado de alguma forma?

 

Não sinto, porque também não dou estas confianças. Eu imponho-me como tal e estou sempre a brilhar

 


Foi o primeiro africano a actuar no Olímpia de Paris e a conseguir um disco de ouro em Portugal. Acha que já conseguiu tudo que pretendia lá fora?

 

Lá fora, talvez. Mas sabe que as mesmas reticências que há aqui no país de origem também as temos lá fora, por causa dos interesses comerciais. Os indivíduos que investem em Angola e vêem cá buscar kumbú podiam muito bem abrir as fronteiras nos países deles de origem e darem aquilo que Angola já me deu. Os tais títulos da Cultura, do indivíduo que mais divulga a música no exterior. Mas lá fora pensam duas vezes, houve quem me tivesse perguntado mas o Bonga começou a cantar da Cesária Évora e até cantou uma música ‘Sodade’, de Camilo antes dela, mas não foi premiado por governos, com excepção do alemão.

 

Em Portugal o que foi que aconteceu: digo que se calhar tinha a ver com a minha ousadia e o meu engajamento, principalmente quando fui à Jamba. Sabe que fui à Jamba e automaticamente disseram-me que acabou. Mas quem me disse isso, ao mesmo tempo também disse de caxexe que nós gostaríamos de facto de te dar a Grã-Cruz não sei de onde, mas depois o seu país vai reagir. Está a ver o oportunismo a jogar? Não gosto de pessoas assim, não dou confiança neste tipo de andarilhos, que dançam consoante os interesses. Quantas vezes não fui evitado, até países que não vou dizer nomes mas são lusófonos, que queriam dar passaportes diplomáticos ao Bonga, porque ajudei tanto os países deles na hora da independência, como ajudei o meu país Angola. Mas não deram os tais títulos porque não convinha. Para nossa juventude, se o Bonga disser que sofreu foi com esse tipo de coisas dos oportunistas políticos que jogam consoante a música, porque não convém determinadas nomeações, considerações, elogios ou menções honrosas.

 

 

Muitos recuaram, mas diziam isso de caxexe quando fosse a casa deles ou às embaixadas. Diziam-me no ouvido aquilo que não assumiam no papel. Este é o grande desrespeito que vejo que há indivíduos, como diz o brasileiro ‘bunda mole’, que estamos cheio deles e que não dão constatação de facto. Os prémios fui receber da França, Alemanha, Estados Unidos, são pessoas que chegam e dizem que você pela voz que tem e às vezes não sabem o que estou a cantar. É pelo profissionalismo, porque vivo disso sempre e não recebo subvenções de ninguém. E aí está-se bem.


‘Recebi o prémio da cultura um bocado tarde’
 

Recebeu recentemente o prémio nacional de cultura e arte na categoria de música. Acha que esse reconhecimento chegou tarde?

 

Foi um bocado tarde, mas como diz o outro antes tarde do que nunca, porque senão ia ficar ridículo. Quando a gente vê o currículo do Bonga e vê que não tem um prémio. Vai ver os outros e depois pergunta porque estes e o outro não. Vale sempre a pena, mas gostaria de dizer o seguinte: quando se tem um prémio desta envergadura melhora-se solicitando o próprio homenageado.

 

Ainda não fui solicitado desde que recebi o prémio e há eventos em Angola que fariam com que galardoados com os prémios de cultura viriam.

 

Convidem os prémios a virem. Os políticos estão em sintonia com os artistas, com os actores da grande movimentação social ou político, mas nós não somos muito ousados.

 

Aliás, os políticos africanos são pouco ousados, ficam sempre à espera que o chefe resolva e mandam recados.

 

Temos que ser pessoas capazes de ter iniciativa. E as iniciativas devem ser em conformidade com o sentimento.

 

Vamos convidar o fulano que é prémio da cultura porque vamos ter aqui vários estrangeiros. Às vezes fico com a sensação que se recebe melhor os estrangeiros do que os próprios ditos nacionais e isso é complicado para nós que já somos independentes e livres.

 

Se queremos ter um país que é nosso, então devemos mandar na nossa terra, como eles mandam na terra deles. E até na terra dele tratam-nos mal. Isso é só uma parte e gostaria que os nossos africanos criassem uma ligação forte para podermos ser contra os outros, porque eles são contra nós quando, sobretudo, a gente não os favorece financeiramente.

 


Sente-se um nacionalista?

 

Sim, acho que já nasci nacionalista e rebelde ainda por cima. E táctico também porque não aceitei qualquer coisa, sobretudo a submissão. Bazei e hoje não estou nada arrependido, muitos que me condenaram ontem hoje telefonam para saber essa tónica.

 


Quais são as pessoas que o condenaram?

 

São várias, alguns nacionais e estrangeiros, mas regra geral relacionado com indivíduos do oportunismo.

 

Não foi nada mais do que isso, foi o oportunismo que jogou e a história está aí a dizer tudo. Muitas destas pessoas já desapareceram, não estão na cena política e uns estão a me olhar de esguelha: ‘o gajo está aí, se não lhe tivesse feito tanto mal’. Imagine se eu vivesse no país das confrontações, não é verdade. É uma reflexão normal e não estou nada arrependido de fazer o que fiz.

 


Considera Elias Dia Kimuezu o rei da música angolana?

 

Não sei quem deu esse título, porque muitas das vezes o Elias disse-me a mim mesmo que ele é um rei sem coroa. Isso é derivado dos seus problemas, das suas carências. Outro dia ele teve problema com uma casa, que lhe foi entregue, e de repente sem kumbú para pagar. Aquelas lutas que se tem para adquirir coisas. Então, um rei não tem estes problemas.

 


Mas considera-o como o rei da música angolana ou não?

 

Eu considero o Elias um grande interprete da música de Angola. Se entrarmos na tónica do kimbundu, então porquê não? Da mesma forma que me consideram o embaixador porque estou lá fora a representar a nossa terra, mesmo sem ter o passaporte diplomático. Mesmo sem ser considerado por algumas esferas oportunistas do sistema político. Mas isso não tem nada a ver uma coisa com outra.

 


Fala muito de política, está filiado em algum partido?

 

Não. Nunca tive. Tenho alguns amigos, que o são por causa da sensibilidade e o sentimento. Não são meus amigos por pertencer aquilo ou acolá.

 


Mas chamou a atenção de muitas pessoas o facto de ter actuado num espectáculo após uma campanha eleitoral do MPLA, com um cachecol deste partido ao pescoço.

 

O cachecol foi posto, mas é da mesma forma que fui para a Jamba sem ser da UNITA. Eu fui para a manifestação do MPLA sem ser do MPLA. Seja como for, o que aconteceu é que isso não constitui para o Bonga qualquer problema porque já cantei em festivais de outros partidos políticos, como o Comunista ou partidos de direita. Não constitui qualquer problema, é uma opção que tomo para ir trabalhar. Faço o meu trabalho e depois quero o meu cachet.

 


Não se sente tentado por algum partido em Angola?

 

Nada. Nem em Angola nem em outras partes do mundo.

 


Foi amigo de Jonas Savimbi?

 

Ah! Do Jonas?… De personagens de partidos. Como disse atrás, sou amigo de vários indivíduos e sou amigo deles derivado do carácter e do temperamento dos indivíduos. E mais nada.

 

Fim de citação.

 

Quando é que regressa definitivamente a Angola?

 

Quando me fazem esta pergunta, eu pergunto se já aconteceu alguma coisa que facultasse este meu regresso? Não vou vir aqui a revelia das coisas que são construídas lá fora para segurar o ganha-pão e dos meus familiares e artistas que me acompanham, as casas de disco, produção, Lusáfrica e a 3D Family. O Bonga não é maluco, porque muitos já cometeram o desaire de vir a correr e se arrependeram, pondo em cheque a própria família e o aglomerado a que pertenciam. Acho que aí eu sou um bocado ‘vijú’, porque se não se tem visão às vezes estrangula-se tudo e vai por água abaixo.

 


Mas o Estado não chegou a lhe ceder um terreno em Luanda?

 

Isso não é assim que se faz. Tem a ver com o governador e havia uma possibilidade da mesma forma que o Bana, de Cabo Verde, também houve um terreno mas que depois tivemos que pagar. O custo não é o de facto, mas é o parcial. Isso é tudo muito fácil, mas agora não quero isso fique no apoio do exagero, da recuperação e de se dizer que já se deu aquilo. Como disseram há tempos que tinham me dado uma boate e eu bazei…

 


Não deram?

 

Não deram coisa nenhuma e nem deviam ter dado, porque não tinha nada a ver e nunca pedi. Não é isto que estava em causa. Então eu que estou no auge do sucesso nas europas da vida, vinha para Angola e deixar cair tudo que tinha, os ouros e as platinas, deixar cair os espectáculos com aquele grupo do João Macau e Tião, que eram os indivíduos que estavam comigo e faziam uma data de espectáculos em tudo que era lugar. Vinha para aqui ter uma discoteca e ficar tudo tipo está-se bem? Espera aí, isso não cola bem ao boato que colocou na altura. Nós na altura estávamos a ser vítimas de uma pressão de adesão de determinadas esferas, de indivíduos com peso sonante e esta foi a altura conturbada por querer-se a qualquer preço que os indivíduos que fossem conhecidos. Felizmente para mim não estou nada arrependido de ter tomado a posição que tomei. Recuei no tempo e no espaço, se calhar recuei como o guerrilheiro para melhor avançar. E tenho avançado de facto.

 


Quando vê o país, que um dia deixou e teima em regressar definitivamente, continua a ter uma lágrima no canto do olho?

 

Essa lágrima no canto do olho tem a ver com a minha motivação das coisas, que passa pelo reconhecimento humano de toda esta multidão pela qual a gente lutou, se enlutou e trabucou.

 

É o povo anónimo, os mussequeiros.

 

Sabe que nasci no Quipiri e mesmo na família chamavam-me por matuense, por ter nascido no mato. Mas impusme pela força no seio da família a essas barrigas inchadas dos miúdos, os charcos de águas putrificadas, os cubicos que caiam com as chuvas e esse povo iletrado que não sabia sequer exprimir um sentimento de reivindicação. A lágrima no canto do olho mantém-se derivada de uma situação que ainda existe em maioria, claro que tenho de saber que há melhoramentos. Mas o melhoramento prioritário não é forçosamente um banco, um hotel ou uma piscina ou apartamento luxuoso. E a lágrima no canto do olho está também de muita emoção sobretudo do não reconhecimento do valor porque não alinhei, mas espera aí.

 


Quando diz não alinhar, significa o quê concretamente?

 

Nas jogadas e nos partidos, naquelas opiniões de sentido único. Continuei eu e isso dá-me imensa satisfação porque cria-me muito mais estofo, sou muito mais sólido para, inclusive, ter a coragem de ir a casa de qualquer indivíduo e falar com ele. Comer a comida dele e falar com ele na boa, sem qualquer problema. Não faço jeito a ninguém. Estou assim normal, a minha opinião é a minha opinião e não é aquilo que me disseram para dizer.

 

Portanto, já há uns putos que me reconhecessem e se têm que me reconhecer não é por causa da minha banga fukula, kota cheio de estilo, que antigamente dizia manda bué de garina, mas não é por aí. Isso é pejorativo. Falem da pessoa mas tentem conhecer quem é no meio de tudo isto. E nós não temos tido a preocupação de conhecer os indivíduos tal como eles são.

 

De onde vêem? Por onde passaram? Ficamos naquela da facilidade, analisar uma pessoa só pela aparência. Nós os angolanos conhecemonos muito mal, é triste que assim aconteça, porque perdemos muito tempo com os futebol, garinagens, supérfluos e superficial. Nos outros tempos tínhamos essa culpa, mas também o inimigo era comum? Só tínhamos um inimigo, mas depois passamos a ter vários inimigos, hoje em dia há vários indivíduos que só nos apontam o dedo e gente não sabe o que ele está a dizer. Pode até ser um potencial inimigo com que a gente está a lidar e pode nos prejudicar a vida, porque não há abertura e a gente não se conhece de facto. E quando acontecem coisas lá fora é mais fácil programarem elementos que seja puxado, porque convém do que as outras coisa que a gente já faz a tanto tempo.



‘Vivo entre lisboa e paris’

 

Quando adoptou o nome Bonga Kwenda já previa que seria um cidadão a andar pelo mundo?

 

Risos. Nem tinha ideia do que iria acontecer, nem sequer tinha certeza de ser artista, continuar e ser profissional. Mentira. Não me venha contar estórias de que quando nasci tinha já uma veia artística, isso é tudo ‘makutu’. Não foi nada assim. Fui solicitado a cantar os temas que tocada nas noitadas com os caboverdianos em Roterdão, com a convivência do Mário Rui e do Humberto Bettencourt, que é cabo-verdiano. E quem nos propõe foi o produtor do Morabeza Record, meu amigo Junga Di Biluka, maravilhoso personagem, que me diz: ‘essas coisas que tú cantas aqui, quando estás aqui tens a saudade da sua terra, vamos ver se colocamos isso num disco’. Ele nem sabia o que iria cantar, nem os músicos sabiam o tema. Só que depois foi um disco e os políticos deviam ter falado dele um dia, mas não falaram, se calhar porque nesta altura do campeonato ainda não convém. E foi um disco que passou recuperado por todos os partidos políticos de Angola.

 


Está-se a referir do Angola 72?

 

Estou a falar do Angola 72, exactamente, que foi a carta de visita que até hoje ainda anda aí a ser procurado porque querem ter na prateleira em casa ou porque o disco desapareceu.

 

Este foi o disco, porque se tenho um disco de ouro, platina ou de diamante é esse Angola 72 que contribuiu tremendamente. Era tudo quanto eu tinha cá dentro que saiu e explodiu. Isso é a minha verdade, minha vivência, é a África e Angola, portanto vamos por aí. E sobretudo mobilizar a juventude, mas não para ser carne de canhão. Para desenvolver-se, reivindicar, estar no seu país e desfrutar de tudo isso. Este foi o ponto de partida e no ano seguinte pediram-me outro disco. Mesmo com as pessoas que no tal ano consideram o tal Bonga como ‘persona non grata’, não pode entrar.

 

Depois veio outro, outro e mais outros. Veja onde já chegou, quase 40 discos.

 


A dado momento da sua vida tiveste de abandonar Portugal durante 18 anos, tendo regressado apenas em 1988. Quando passas por este país sentes algum reconhecimento pelo trabalho que fizeste?

 

Há uma espécie de memória curta dos europeus e que nós, às vezes, também acompanhamos. Se tivesse que fazer as coisas para que fizessem algo para mim, estava feito. Não é por aí. A gente quando dá esmola a um pobre, ajuda um artista que quer colaborar não peço dinheiro nenhum. Então, fui recordista de atletismo aqui em Angola e em Portugal também, mas dá-me a impressão que cada vez a pessoa tem de estar a fazer mais e mais. Procuram que a gente justifique estas coisas todas. As pessoas esqueceram tudo rapidamente, mas paciência. Também não estou a pedir nada. Estamos aí em vida e continuamos. E nos locais onde nos sentimos melhor é construirmos um ninho com os familiares chegados, que também está a ser difícil porque está uma vida complicada, financeiramente para toda gente, uma crise das famílias que já não se encontram e está um divórcio das coisas do antigamente que já não definem praticamente coisa nenhuma. Está assim uma chatice na convivência das pessoas, há sempre um interesse qualquer material. E isso está complicado, mas estou a falar da minha experiência. Sabe que sou conselheiro e às vezes os jovens telefonam porque sou tio de toda a gente. Há sempre atrás um pedido que vai ser feito e se não satisfaz, eles dizem esse ‘kota também’.

 

Falando de Portugal, quando passo por lá quero encontrar prioritariamente os angolanos residentes, porque não posso vir todos os dias a Angola. Fica caro e não tenho esse kumbú. Nós que nos encontramos na diáspora seria bom reunir os miúdos, falarmos das nossas coisas e matarmos as nossas saudades.

 

Construir um aglomerado nosso sem passar por estas associações, partidos.

 

Não tem mais definição, é a amizade em si que tivemos num passado muito recente. É complicado fazer-se isso, primeiro porque só uns é que dão e outros não, porque não têm possibilidade. Depois porque os valores já não são os mesmos. As dificuldades acrescidas fazem com que estejamos afastados uns dos outros. Isso é um bocado triste, já não é aquela badalação de outros tempos. Demos a outra desvantagem de não termos negros na Assembleia da República e nos partidos políticos em Portugal. Não temos negros no Governo de Portugal. Como já foi no tempo da outra senhora.

 

Quero recordar que o indivíduo jornalista que fazia os noticiários das 20 na televisão portuguesa era um negro de Angola. É complicado entender hoje. Se calhar como no outro tempo se praticava a psico-social para dar a entender que se promovia os negros, o Adriano Parreira era portanto este jornalista e outros mais. Mas o 25 de Abril trouxe o quê? Também devia trazer a fusão destes povos, daqueles negros que estudaram com os brancos em Portugal. Mas onde é que estão eles?

 

Onde é que estão os negros destacados em Portugal? É mais fácil encontrar na França um antilhano ou francófono no governo francês, destacado como chefe ou director. Esta é uma preocupação dos nossos miúdos que já nasceram na Europa, que nos perguntam: ‘ó pai, estão aonde os mbumbus? Mas nós nascemos aqui na Europa, estudamos como os brancos.

 


Onde é que vives actualmente?

 

Eu faço Paris e Lisboa constantemente. Em Paris porque é lá que tenho, contrariamente ao que diz muita gente, e não em Lisboa onde tenho o meu bussiness. Em Paris que está a casa de disco, que é a LusÁfrica, que é a mesma da Cesária Évora, é lá tenho o agente artístico que me arranja trabalho, que é a 3D Family, que tem uma agência artística fabulosa. É lá também onde fazem a propaganda e a publicidade. Em Lisboa só vou por tenho também casa, é lá que há os funjes, as notícias são mais frescas. Mas também ouvi dizer que nós que estamos cá fora não podemos votar, fomos vetados.

 

Mas então espera aí, o angolano que se preza tem de votar. Mas dizem que nós é que mandamos as fofocas para complicar o país. Vamos tentar resolver isso, temos de estar em sintonia com o país de origem, porque eu que canto Angola estando lá fora quero que me reconheçam aqui.

 

Não votou nas eleições passadas? Passadas não, porque estava fora. Só votei nas eleições antepassadas.

 

Fonte: O País

Última actualização: 25-06-2011 20:03

 
Almir Agria Regressa à Radio... Saiba qual será nova casa do Jornalista. PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administração   
Quinta, 23 Junho 2011 05:42

Almir Agria Regressa à Radio... Saiba qual será nova casa do Jornalista.

A Platina Line, Soube que Almir, anda em segredo a preparar a estréia em breve no programa Kais Fm, na Eclésia e tem sido visto por diversas vezes na portaria da emissora. Dez meses depois de ter saído da Radio Luanda e Canal 1 da Tpa, Almir Agria volta ao cenário as tardes de rádios, desta vez na emissora católica Radio Eclésia , o Kais FM será destino do radialista e Apresentador Almir Agria.

 

O programa marca o regresso de um dos anfitriões mais emblemáticos e conhecidos das tardes de Luanda, meses depois de uma das maiores polêmicas jornalísticas, na seqüência de vídeo pornô protagonizado pelo radialista em 2010, Almir Não resistiu e acabou saindo do Jovem Mania e ficou com situação não definida na Radio Luanda .

 

Durante a licença sabática, andou em turnê com um espectáculo de stand up comedy, ironicamente intitulado The Legally Prohibited from Being Funny on Television (Legalmente Proibido de Ser Engraçado na Televisão), enquanto se preparava para o lançamento de seu novo show de TV.
Procuramos Almir para confirmar, tal noticia, ele simplesmente, não confirmou e nem desmentiu nada, remete-se ao silencio. Apesar disso fontes ligadas ao Jornalista confirmam que Almir poderá estrear mesmo nas próximas semanas na Radio Eclésia está concentrado na quantidade de projetos que tem em mãos, incluindo shows e apresentação do Cd Maxi Single Master Jake, W club, e outros projetos empresariais. Como sempre á Platina Line, tentou obter a confirmação através do artista, mas tal não foi possível e confrontado com as noticias, Almir Agria , apenas sorriu e afirmou que tudo se Saberá na devida altura."
 

 


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