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O poder destrutivo da bajulação III - António Venâncio
Luanda - A bajulação é a junção de pelo menos duas peças substantivas: a língua exagerada e a ganância. A mais saborosa bajulação rega-se depois com uma pitada de intriga para prejudicar o próximo e con¬quistar a simpatia do chefe. Os maiores bajuladores, estes peque¬nos monstros da intelectualida¬de que fazem do poder da língua uma fonte de riqueza e um instru¬mento para a ascenção social, são também produto da existência de debilidades no campo da estrutu¬ração ética, cultural e sociológica da sociedade, conjugada com a ausência de alternâncias do poder.
Fonte: SA
As sociedades com ciclos de liderança ininterruptos e previsi¬velmente longos, transformam-se irremediavelmente em boas potências de bajuladores, pois os reproduz em grande escala. Só a caminhada cíclica de períodos de alternância do poder, na condição em que a sociedade se vê agra¬ciada pela renovação através da mudança periódica de lideres e de lideranças organizacionais, pode constituir uma solução duradoira para o aniquilamento do fenóme¬no da bajulação.
Os bajuladores de um dado país ficam órfãos quando se processam as alternâncias, e são obrigados a trabalhar para ganharem a vida honestamente.
Ao se modificarem as condi¬ções de liderança e ao libertarmos os cidadãos desta malígna prisão do serventilismo imposto pelas regras da promoção e da ascenção através do exercício do culto da personalidade, do endeusamento, dos elogios exagerados, em suma, da bajulação, hão-de se destacar o mérito pessoal, a competência e o profissionalismo como valores mais relevantes no reconhecimen¬to do prestígio do cidadão. Cada elemento da sociedade saberá então que a sua vida e o sucesso pessoal repousam no trabalho, na dedicação e nos sacrifícios que há de consentir na sua luta diária e abnegada pela conquista da vida.
Os cidadãos precisam de acre¬ditar nas suas próprias forças para se tornarem livres e construirem o seu futuro e o de suas famílias. Se assim não for, enraizar-se-á na so¬ciedade uma cultura, subtilmente institucionalizada, de bajulação. Esta realidade pode ser vista como violadora dos direitos humanos, pois fomentar o surgimento de bajuladores num dado país, é, sem dúvida, um crime moral conde¬nável, como aliás já nos referimos anteriormente.
Enquanto a qualidade de vida do cidadão depender do nível da bajulação que pratica, muito dificilmente o progresso social e o progresso técnico-científico e económico encontrarão lugar neste espaço territorial malefi-camente infectado. Esta fragili¬dade, que afectará o desenvol¬vimento necessariamente, pode ser esbatida definitivamente como vimos, mas através de processos de alternância.
O país precisa de empreender acções culturais e de conscien¬cialização permanentes para que todos os cidadãos se apercebam de que a sua promoção social e a sua vida apenas poderão melhorar com o trabalho limpo e honesto; com a formação e a experiência profissional; com a melhoria do seu desempenho no local de tra¬balho, na fábrica ou na escola. Assim o país será transformado numa excelente arena de compe¬tividade e plataforma estimulante para uma verdadeira emulação de cérebros, sobretudo em relação à juventude, que se empenhará mais na preparação do seu futuro.
Portanto, podemos concluir que um factor destrutivo do poder do bajulador reside exactamente na capacidade de poder adulterar as regras da promoção, da valo¬rização e do reconhecimento das capacidades dos cidadãos.
O facto de que alguém se propõe a retirar proveito da subserviência e do serventilismo (lambe-botas é um termo que assenta em cheio no caso) em busca de vantagens frau¬dulentas com que depois se aco¬modará na sociedade, para colma¬tar seus desejos egoístas de fama, longevidade no posto, conforto e riqueza, denota a fraca pressão da sociedade sobre o oportunismo e a injustiça social. Cabe pois à so¬ciedade fazer a sua parte. E a cada um de nós, partícipe e actor activo nesse difícil combate.
Nessa contenda entre os baju¬ladores e a sociedade - que quer crescer na paz, na justiça social e na democracia - cruza-nos pelo caminho a falência dos processos democráticos, a sua lentidão ex¬cessiva ou mesmo a sua ausência. Acontece, porém, que a inexis¬tência de verdadeiros processos democráticos permite o acomo¬damento e a longevidade exagera¬da dos líderes e das organizações políticas, o que concorre para a es¬tagnação e a arrogância. Para evi¬tarmos o desarranjo, os mandatos que regulam o tempo não devem ser exageradamente sucessivos, sob risco de aqueles que vivem da bajulação prepararem as suas aco¬modações e as suas cadeiras para anos sucessivos, com folgada an¬tecipação e conforto. Ao saberem que mais mandatos virão para os próximos anos, até cairem de ve¬lhos, os bajuladores preparam-se com grande eficácia para se man¬terem calcinados no comando e olham para a vida como o mun¬do das maiores facilidades, sem a preocupação de se superarem e conquistarem o céu com justiça. Pelo contrário, o bajulador nato tem como marca o defeito do co¬modismo, da vaidade e da arro¬gância, geralmente acrescentando a elas actos de intriga e de combate desleal para prejudicar o próximo a coberto da alegada defesa do lí¬der ou da organização.
Paralelamente à alternância que deve ser o motor da regula¬ção do exercício do poder, os lí¬deres podem também contribuir para o aniquilamento do fenó¬meno bajulador. Ao levarem a sério o fenómeno, os líderes podem recusar, com hombri¬dade e verticalidade, quaisquer actos individualistas de apro¬veitamento ou de serventilismo a seu favor, pautando a sua con¬duta por valores da humildade e honestidade intelectual. Não se trata de tarefa fácil para aque¬les que pretendem se perpetuar no poder, mas o será inevitavel¬mente para aqueles que regu¬lam as suas vidas pela regra dos mandatos limitados.
Os líderes que se organizam com base na limitação de manda¬tos não precisam de bajuladores para os defender da longevidade no poder. Este é também um ca¬minho que pode ser seguido pelo nosso país: quando os cidadãos entenderem que finalmente os mandatos são limitados, compre-enderão melhor por que razão não devemos bajular nem vender a nossa própria consciência a troco de acomodações ou riqueza por via da desonestidade.
Quando o mérito pessoal pre¬valecer sobre o jogo das influên¬cias, vencer a intriga e derrotar os bajuladores famintos de poder individualista, compreenderemos melhor por que razão não nos devemos vender ao ridículo para agradar e garantir a nossa ascen¬ção empolgados aos favores do chefe.
Todavia, a conjuntura sócio-política do nosso país mostra que não basta almejar a alternância e declará-la parte integrante da democraticidade do sistema. As forças políticas que configuram a única reserva da sociedade, para a materialização das eventuais alternâncias, precisam de estar preparadas, e os resultados das al¬ternâncias precisam de ser sempre vantajosos para evitarmos o re¬gredimento e o atraso na corrida pelo desenvolvimento.
Os bajuladores só serão ven¬cidos com alternâncias que nos conduzam a mudanças progressi¬vistas, pois de nada valeria a mu¬dança do rótulo sem melhorias na qualidade do produto. Ao que me parece, nesse aspecto ainda muito há que esperar, infelizmente, pe¬las razões objectivas e subjectivas em causa. Resta-nos então tomar como prioritário o combate à ba¬julação pela via da denúncia e das formas astutas da sua manifesta¬ção.
Por vezes, analistas e até cida¬dãos anónimos mostram-se in¬dignados com determinados res¬ponsáveis, dirigentes ou políticos que são injustamente catalogados como bajuladores. Alguns nomes têm sido divulgados até pelas re¬des sociais. Nem todos o são!
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