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Lunda Sul tem três suicídios por semana
Em 1897 Émile Durkheim publicou uma obra que intitulou «O suicídio».
Como indica o próprio nome, a obra visava estudar esta problemática, tentando compreender os traços que a caracterizam, as suas motivações e, claro, em função disso, poder desenhar estratégias para lidar com o problema. Nesta obra Durkheim enunciou pela primeira vez a célebre teoria da anomia. Contrariando as principais teses explicativas da altura, Durkheim encarava o suicídio não como resultado de uma qualquer desestruturação psicológica do indivíduo, mas como consequência do enfraquecimento da coesão da sociedade, considerando, por isso, que havia uma forte ligação entre este e a ordem social vigente. Da observação de variáveis, principalmente do tipo económico, Durkheim concluiu que o rompimento da ordem social era originado pela perda dos limites da realização das necessidades individuais, ou seja, que a falta de expectativas claras acerca das aspirações, acerca do seu futuro, a falta de perspectivas, leva o indivíduo a entrar em estado de anomia, o que o leva a adoptar aquele comportamento tido como desviante.
Ele definia a anomia precisamente como sendo um estado de desequilíbrio em que um indivíduo se pode encontrar, em resultado do desfasamento, do desencontro entre as oportunidades, entre as possibilidades reais ao seu dispor para a satisfação das suas necessidades, e os meios legítimos ao seu alcance para a sua realização. No fundo, quando entre uma e outra não existe correspondência, o indivíduo pode ser levado a desistir. Esta é ainda hoje uma das teorias mais aceites para explicar o suicídio, pelo menos do ponto de vista da sociedade.
Conforme a tabela que acima se apresenta, desde Janeiro de 2009 a Julho de 2010 ocorreram na província da Lunda Sul (53) casos de suicídio, sendo (33) o ano passado e os restantes (20) até ao fim do primeiro semestre do corrente. Procurando analisar o quadro, ressalta à primeira vista que a maioria dos casos (51) ocorreram no município de Saurimo, o município sede. Por um lado isso pode ter a ver com a pressão da vida da cidade, muito mais exigente do que a vida no campo, mas também pode ter a ver com a maior possibilidade de controlo destes casos nessa zona, em função de uma melhor cobertura policial e também de uma atitude diferente das suas comunidades.
De um encontro com as comunidades tradicionais da província ficamos a perceber que culturalmente os casos de suicídio são repudiados entre as comunidades, e a sanção do suicida consiste em não lhe ser dado o tratamento digno que merecem os mortos na tradição bantu, negando-lhe o enterro e toda a cerimonia fúnebre, devendo o mesmo ser enterrado ali onde foi encontrado.
Ora, significa isto que é possível que nas comunidades mais longínquas também ocorram casos desta natureza mas, porque mais ligadas ao costume da terra, não têm sido relatados. Significa que poderemos estar também, neste caso, em presença de estatísticas que não reflectem com rigor a realidade, o que torna mais grave o quadro geral, na medida em que os números poderão ser ainda mais alarmantes do que os actuais, que já apresentam uma média de (03) suicídios por semana.
Procurando uma possível caracterização das vítimas, o quadro mostra que a maioria dos suicidas é do sexo masculino (37) situandose em regra na faixa dos 30 anos em diante. Aquela onde a pressão económica se apresenta com maior acuidade.
Isso mesmo pode ser confirmado pelo facto de a maioria destes indivíduos serem desocupados, havendo apenas (01) caso registado em que a vítima era trabalhador.
Ressalte-se aqui a existência de (04) casos de crianças, com idades compreendidas entre os 10 aos 15 anos e (09) casos de jovens entre os 15 aos 20.
Em termos de modus operandi, verificamos que a maior parte (50) dos suicídios são cometidos por via de estrangulamento (vulgo enforcamento) e ocorrem preferencialmente no interior de residências familiares (38). E, embora não seja fácil determinar efectivamente o motivo que leva a pessoa a cometer o suicídio, investigações posteriores ao facto indicam que muito dos casos estão relacionados com acusações de feitiçaria, onde por uma questão de honra a pessoa acusada decide tirar a vida, sendo que noutros casos o mesmo é forçado a cometer suicídio ante a ameaça de ser queimado ou espancado até à morte. Outros dos motivos estão relacionados com situações de doenças e com o consumo de álcool.
Neste caso, o consumo de álcool parece-nos não ser o que chamaríamos de motivo para o facto, mas tão-só o elemento facilitador. Ou seja, o indivíduo formula o desígnio de cometer o suicídio e ingere bebidas alcoólicas no sentido de lhe ser mais fácil realizar a acção que programou.
Neste caso também, e se tivermos em conta não só a teoria formulada por Durkheim, mas também a realidade socioeconómica da província, com altos índices de pobreza, altas taxas de desemprego, de analfabetismo, com uma rede escolar ainda deficitária a todos os níveis, teremos de concordar que estes aspectos estão fortemente relacionados com esse problema que é, em termos de segurança pública, aquele que parece merecer maior preocupação, fundamentalmente porque coloca em causa o bem mais fundamental do homem, a sua vida.
Fonte:Opais
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